sábado, 19 de maio de 2018

Historicismo e Positivismo: ideias de História. Igor de Lima

Segundo Barros (2010, p. 85), a historiografia positivista mantinha a “crença na possibilidade de encontrar leis naturais e invariantes para as sociedades humanas”; compreendia que a “neutralidade” era parte fundante do fazer do cientista social; bem como realizava uma metodologia sobre as ciências humanas e naturais. 
Ainda de acordo com o mesmo autor (Idem, p. 86), “o positivismo francês oferecia o consenso com base na ideia de universalismo; o historicismo alemão buscava proporcionar o consenso social ancorado na ideia de nacionalismo. Para tanto, era necessário realizar uma nova forma de história, cujos dois principais pilares foram a recuperação de uma documentação alemã que remontava aos tempos medievais, e o desenvolvimento de um novo método de crítica destas fontes como inspiração fisiológica”.
Barros destaca a presença do positivismo nos métodos criados para as ciências sociais, principalmente na formação da sociologia. E conforme Dosse, “é sobretudo a sociologia Durkheiminiana que transforma profundamente as orientações historiadoras em torno da construção de uma física social, de uma sociedade vista como uma coisa, cujos sistemas de causalidade cabe ao pesquisador descobrir. Essa sociologia conquistadora do fim do século XIX e começo do século XX multiplica suas ofertas de serviços aos geógrafos, historiadores e psicólogos, ao redor do conceito de causalidade social. Os princípios epistemológicos dessa sociologia que pretende representar por si só a ciência social’ fundamenta-se, em primeiro lugar, no objetivismo de um método em nome do qual os cientistas são considerados livres de seus a priori, em segundo lugar, na realidade do objeto e por fim, na independência da explicação, que permite reduzir o fato social a sua causalidade sociológica, considerada a única eficiente”. (2012, P. 61)
Continuando a análise da sociologia de Durkheim (1858-1917), Dosse afirma que “os princípios sociológicos” do mesmo “fundam-se num objetivismo do método que, em nome no necessário corte científico, apoia-se num afastamento da subjetividade do pesquisador. O segundo postulado dessa corrente é a realidade do objeto estudado. Daí decorre que os fatos sociais devem ser analisados como coisas, e esses fatos sociais exercem uma pressão sobre o indivíduo. Durkheim torna absoluto o corte entre fatos psicológicos e fatos sociais. O fato social é aquilo que é suscetível a exercer uma pressão exterior sobre o indivíduo, ou ainda, que é geral na extensão de dada sociedade, embora tenha existência própria, independente de suas manifestações individuais. ‘Não é só’, escreve Durkheim, ‘esse tipo de conduta ou pensamento é exterior ao indivíduo, mas é dotado de uma potencia interpretativa e coercitiva, em virtude da qual se impõe a ele, queira ou não. Em terceiro lugar, a explicação do fenômeno social é considerada pertencente a um nível autônomo, com a preocupação de fazer sociologia sociologicamente, isto é, reduzir os fenômenos sociais a explicações puramente sociológicas”. (DOSSE, 2012, pp. 62-63)

Diferentemente do positivismo, o historicismo estabelecia uma metodologia analítica enfocando os dados empíricos, destacando a “relatividade do objeto histórico”, sendo a perspectiva metodológica específica da História diferente das demais ciências humanas; assim como também o historiador possui sua subjetividade ao narrar a história. Segundo BARROS, “o historicismo em diversos dos seus setores, foi apurando a percepção de que o historiador não pode se destacar da sociedade como pressupunha o modelo das ‘ciências naturais preconizado pelo positivismo e outras vertentes cientificistas das ciências humanas. Ao contrário disto, foi se afirmando cada vez mais no universo historicista a ideia de que o historiador fala de um lugar e a partir de um ponto de vista, e que, portanto, não pode almejar nem a neutralidade nem a objetividade absoluta, e menos ainda falar em uma verdade em termos absolutos. A hermenêutica – campo de saber dedicado à interpretação de textos e objetos culturais – foi se afirmando como importante espaço de reflexão a partir de filósofos e historiadores que realçaram a relatividade dos objetos, sujeitos e métodos históricos” BARROS, 2010, p. 88)

BARROS, José de Assunção. Objetividade e significado no conhecimento histórico: a oposição entre os paradigmas positivista e historicista. In Revista tempo, espaço e linguagem (TEL), v. 1, n.2, maio/ago, 2010, p. 73-102.
DOSSE, François. A História. São Paulo: Editora Unesp, 2012.

sábado, 28 de abril de 2018

COSTA, Emilia Viotti da. A dialética invertida e outros ensaios. São Paulo: Editora Unesp, 2014, p. 219.


“a relação entre o historiador e a sociedade caminham em via dupla. O trabalho do historiador, queira ele ou não, é produto da sociedade e do tempo em que vive. A vivência do presente afeta a construção do passado. Ao mesmo tempo, o posicionamento do historiador na sociedade marca os limites da sua visão. Suas experiências definem suas motivações e explicam por que e para que se debruça sobre a história. Seu projeto inspira-se em problemas sugeridos pela posição que assume na sociedade. Seus temas e seus métodos são função dos objetivos que pretende alcançar e das razões que o levam a estudar história. Sua própria definição do que é história nasce a partir dessas coordenadas”.

sábado, 16 de dezembro de 2017

"Historicidade" em HARTOG, François. Regime de Historicidade. Presentismo e experiência do tempo. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015.

     “Historicidade’, por que? Que Hegel a Ricoeur, passando por Dilthey e Heidegger, o termo remete a uma longa e pesada história filosófica. Pode-se enfatizar seja a presença do homem para si mesmo enquanto história, seja sua finitude, seja sua abertura para o futuro (com o ser-para-a morte em Heidegger). Retenhamos aqui que o termo expressa a forma de condição histórica, a maneira como um indivíduo ou uma coletividade se instaura e se desenvolve no tempo. É legítima, observarão, falar de historicidade antes da formação do conceito moderno de história, entre o fim do século XVIII e o início do século XIX? Sim, e por ‘historicidade’ se entender esta primeira experiência de estrangment , de distância de si para si mesmo que, justamente, as categorias do passado, presente e futuro permitem a aprender a dizer, ordenando-a e dando-lhe sentido. Assim, remontando bastante, até Homero, é a experiência que Ulisses faz diante do barbo dos feácios contando as façanhas: ele se encontra repentinamente confrontando com a incapacidade de unir o Ulisses glorioso que ele era (aquele que tomou Tróia) ao náufrago que perdeu tudo, até seu nome, que ele é agora. Falta-lhe justamente a categoria de passado, que permitiria reconhecer-se neste outro que é, no entanto, ele mesmo. É também, no início do século V, a experiência (diferente) relatada por Santo Agostinho. Lançado em sua grande meditação sobre o tempo, no livro XI das Confissões, ele se encontra inicialmente incapaz de dizer, não em um tempo abstrato, mas esse tempo que é ele, sob esses três modos: a memória (presente do passado), a atenção (presente do presente) e a expectativa (presente do futuro). Podemos nos servir da noção de regime de historicidade antes ou independente da formulação do conceito moderno de história, tal como a delineou bem o historiador alemão Reinhart Koselleck” (p. 12)
        “O uso que proponho do regime de historicidade pode ser tanto amplo, como restrito: macro ou micro-histórico. Ele pode ser um artefato para esclarecer a biografia de um personagem histórico (tal como Napoleão, que se encontrou entre o regime moderno, trazido pela Revolução, e o regime antigo, simbolizando pela escolha do Império e pelo casamento com Maria-Luisa da Áustria), ou a de um homem comum; com ele, pode-se atravessar uma grande obra ( literária ou outra), tal como as Mémoires d’autre-tombe de Chateaubriand Conde ele se apresenta como o ‘nadador que mergulhou entre duas margens do rio do tempo’), pode-se questionar a arquitetura de uma cidade, ontem e hoje, ou então comparar as grandes escansões em relação com o tempo de diferentes sociedades próximas ou distantes. E, cada vez, por meio de atenção muito particular dando aos momentos de crise do tempo, e às suas expressões, via-se produzir mais inteligibilidade”.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

RICOEUR, Paul. Objetividade e subjetividade na História. In: História e Verdade. Rio de Janeiro: Cia. Forense, 1968, pp. 23-44

           "(...) A história faz o historiador tanto quantoo historiador faz a história. Ou antes, o mister do historiador faz a história e o historiador. Outrora, impunha-se a razão ao sentimento, à imaginação, hoje, reintroduzimos de certo modo a imaginação e sentimento na racionalidade pela qual optou o historiador que faz com que a linha de clivagem passe pelo próprio cerne do sentimento e da imaginação, cindindo aquilo que eu chamaria um eu de pesquisa e um eu patético: o eu do ressentimentos, dos ódios, dos requisitórios. Ouçamos uma última vez Marc Bloch ‘compreender não é julgar’. (...)” (p. 34)

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

O conceito de História Universal (1831) de Ranke (1795-1886): Notas

          Em O conceito de História Universal (1831) Leopold von Ranke (1795-1886) afirma suas bases para o conhecimento histórico, salientando  o seu “amor à verdade” e à “investigação documental”. Para o mito do pai da História, 
        “A História se diferencia das demais ciências porque ela é, simultaneamente, uma arte. Ela é ciência, na medida em que recolhe, descobre, analisa em profundidade; ela é arte na medida em que representa e torna a dar forma ao que é descoberta, ao que é aprendido”. (RANKE, p. 202. Aud. MARTIS, 2010)
        Ainda de acordo com Ranke, neste “paradigma documental”, quanto mais investigada com análise de fontes e pesquisa, mais “livremente nossa arte se movimenta”. (Idem, p.209)
        A particularidade da História destaca-se na compreensão do objeto e na busca da sua verdade. Também conforme Ranke,
“(...) Caso a arte histórica for capaz de infundir-lhe vida; e de reproduzir com aquela parcela de força poética que não inventa algo novo, mas apenas reproduz o que é captado e compreendido em suas feições verdadeiras, então, como dizíamos no início, ela seria capaz de unificar ciência e arte, de juntar ambas em seu próprio elemento”. (Idem, p. 213)
MARTINS, Estevão de Resende. História Pensada. Teoria e Método da Historiografia Europeia do século XIX. São Paulo. Contexto, 2010.