domingo, 11 de setembro de 2016

Revoluções Inglesas: notas historiográficas. Igor de Lima

Após a segunda metade do quartel do século XVI, sob o governo dos Tudor constituía-se uma nova aristocracia de funcionários e militares que adquiriam terras, geralmente proveniente da Igreja Católica dos monastérios e retiradas pela Igreja Anglicana de Henrique VIII.
Durante os anos de 1540 à 1640, havia uma ascensão social na sociedade inglesa. Dentre as camadas sociais que se enriqueciam estava a gentry, proprietárias de terras e bens de consumo. Também destacava-se o crescimento da burguesia, a ascensão social das camadas médias e o empobrecimento geral, havendo, portanto, uma acentuação das diferenciações sociais.
Desse modo, a sociedade inglesa passava por disfunções múltiplas, caracterizadas, em síntese, por forças e tendências sociais, econômicas, religiosas e políticas governamentais a longo prazo.  A política econômica dos governos Tudor e Stuart eram marcadas pela dificuldade de tributação, pela falta de tropas, pela crise das instituições políticas e religiosas, bem como os conflitos entre as elites.
No plano religioso, a instituição do clero anglicano, o aumento do protestantismo e a presença da minoria católica de nobres faziam com que os conflitos e as tensões acirrassem ainda mais os ânimos do parlamento na década de 1630.
Analisando as Origens Intelectuais da Revolução Inglesa, Christopher Hill observa para a expansão do “sistema de educação” e do ensino de ciência e medicina, perpassada por debates teológicos e religiosos presentes no período. E, até mesmo, esses conhecimentos foram financiados pelo próprio governo monárquico. (HILL, 1983, pp. 25-39)
Ademais, os conflitos ideológicos e a tensão entre o Parlamento e a Realeza eram acentuados ainda pela circulação de ideias com os panfletos puritanos, o contrabando de livros das gráficas clandestinas e os sermões nos púlpitos nas paróquias locais. Assim, conforme Stone, o “particularismo local foi crescendo par e par com o crescimento do governo central”. (STONE, p. 124)
No governo dos Stuart do início do século XVII, a crise política acirrava-se com o distanciamento entre a Coroa e os grupos do parlamento, formados também por diversidades religiosas.
Destacava-se, no conhecimento científico aproximado com a História e Política Sir Walter Raleigh. Nascido em 1554 e terminou sua carreira com a morte da rainha Elizabeth I, em 1603. Preso na Torre de Londres, escrevia History of the World, obra em que descrevia as viagens no ultramar. E, uma das características que marcavam suas reflexões e que repercutiram nas Revoluções Inglesas foram, de acordo com Hill, a diminuição do poder real frente ao parlamento, uma agressiva política ultramarina, redistribuição de impostos e formação de uma tolerância religiosa.
Dentre as reflexões de Raleigh estavam a expansão das ideias científicas notata em seus versos:
“Que artesão e letrados abraçam
e vestem as matemáticas com ricos ornamentos,
essa admirável destreza matemática,
familiarizada com as estrelas do zodíaco”. (HILL, p. 167)
A obra de Raleigh parece ter repercutido durante o século XVII, aparecendo novas edições de suas obras e mesmo Oliver Cromwell recomendava a leitura de History of the World ao primogênito Richard. (HILL, idem, p. 143)
Assim, Cromwell, fidalgo, criado com modéstia em um ambiente anti-católico, e anti-espanhol, participava da luta contra Carlos I. Fizera parte com seus primos da Câmara dos Comuns. Com uma agilidade política adquirida com o tempo no exército revolucionário, apoiava-se em 1644, na autoridade do Parlamento, Falava em 5 de setembro ao coronel Walton “jamais pude satisfazer-me com a justeza desta guerra, se não fora pela autoridade do Parlamento, em manter-se na posse dos meus direitos, quanto a esta causa, espero dar provas de ser um homem honesto e de coração leal”. (Apud. Hill, p. 49).
Com estes “cavaleiros de ferro”, Cromwell em 1644 era eleito general. Quatro anos depois, o rei Carlos I era executado, segundo Hill, por motivos pragmáticos e não ideológicos e o general invadia a Irlanda com uma baixa de 1.500 a 2.000 pessoas.
O general, nesse momento, poderia aderir a algumas das ideias de Ralegh apoiando uma política mercantil, como o Ato de Navegação, em 1651, que o Parlamento declarava o monopólio imperial sobre o comércio e a frota mercante.
Em 1653, Cromwell tornava-se Lorde Protetor. Os radicais, representados em sua maioria pelos Baptistas e Quacres eram derrotados. Contudo, a ideia de que a Inglaterra era uma nação predestinada estava presente. O protetor afirmava que as benesses do Senhor “recaem sobre nós como se Ele dissesse: a Inglaterra é minha primogênita, minha alegria entre as nações, e sob este céu que nos Cobre o Senhor jamais deu esse tratamento a nenhum dos povos que nos rodeiam”(Apud. Hill, pp. 123-126).
(HILL, 1983, p. 79)
“Uma vez iniciada a guerra contra o rei, surgiram divisões no seio e no exterior do Parlamento, quanto ao modo de a conduzir. As tropas da pequena nobreza realista (os Cavaleiros) tinham determinadas vantagens militares. Os cabeças redondas [este nome tem uma conotação com o escárnio social] eram mais fortes nas cidades, mas se bem que os habitantes dos burgos trouxessem dinheiro para a causa, não eram inicialmente homens experimentados na luta. Os cavaleiros, por outro lado, contavam principalmente com o norte e o oeste da Inglaterra, economicamente atrasados e mal administrados; e, juntamente com os seus arrendatários e vassalos, estavam habituados a cavalgar e a combater duramente”. (Idem, p. 79)
“Durante muito tempo, contudo, o Parlamento procurou lutar contra os Cavaleiros com as próprias armas destes – chamando as milícias feudais dos condados leais ao Parlamento, utilizando o velho aparelho financeiro e administrativo dos condados para continuar a guerra. Porém, deste modo, os verdadeiros recursos do Parlamento não foram aproveitados – a imensa riqueza de Londres, as capacidades administrativas da burguesia, e, em particular, a iniciativa de recursos da massa do povo que finalmente apoiava a causa, - sendo defraudados pelo sistema de casta que estava na base do fornecimento de oficiais às milícias e pelos caciques locais. Um avanço realista sobre Londres apenas foi impelido pela resistência obstinada de três grandes portos – Hull, Plymouth e Gloucester – e pela corajosa frente feita pelos cidadãos de Londres em Turnham Green (1642) e a marcha destemida em socorro de Gloucester. Porém, estes esforços espontâneos tiveram uma coordenação inadequada” (Idem, p. 80)
Segundo Hill, a burguesia necessitava do povo no início das batalhas contra os Cavaleiros. Em abril de 1645, “todos os membros do Parlamento foram obrigados pelo ‘Self-Denying Ordinance’ (Decreto de Abnegação) a renunciar ao comando. Este fato atingiu principalmente os nobres; a renúncia ao seu direito tradicional de comandar as forças armadas do pais constituía só por si uma revolução social secundária. Formou-se o Novo Exército Modelo, com a carreira aberta a talentos, organizada a nível nacional e financiado por um novo imposto nacional”. (Idem, p. 83)
“Por sua vez, isto conduziu a mudanças correspondentes no aparelho do Estado. A destruição da burocracia real deixara um vazio que deveria ser preenchido po funcionários da classe média. Porém, a expressão das necessidades revolucionárias levava à criação de uma série de comités revolucionários nas várias localidades. (...)”. Para Hill, “estes comités estavam agora organizados centralizados e submetidos ao controlo geral dos grandes comités do Parlamento, que realmente conduziam a Guerra Civil – o comité de ambos os reinos, o comité para o empréstimo de dinheiro, etc. O velho sistema estatal foi parcialmente destruído e modificado; novas instituições surgiram sob a pressão dos acontecimentos”. (Idem, p. 84)
A guerra fora ganha pela artilharia de alta qualidade de Cromwell, constituída por pequenos proprietários contra os cavaleiros realistas. A disciplinas dos mais humildes de Cromwell ganhavam os confrontos. Conforme Hill, “uma vez devidamente organizado e pago com regularidade, dotado de um comissário e de técnicas eficientes, e com Cromwell nomeado chefe indispensável, o Novo Exército Modelo avançava rapidamente para a vitória, e os realistas foram derrotados em Naseby (1645). A guerra acabou pouco depois. (...)”. (Idem, p. 85)
“(...) Uma vez terminada a luta, os ‘Presbiterianos’ partidários do compromisso recomeçaram a levantar a cabeça, dentro e fora do Parlamento. Carlos tinha-se rendido em 1646 ao exército escocês, que o negociou com o Parlamento inglês. Logo a seguir, os ‘Presbiterianos’ começaram a negociar com o rei no cativeiro: propuseram livrar-se do exército vitorioso enviando-o à conquista da Irlanda, sem pagarem os salários; não realizaram reformas sociais, nem sequer indenizaram pelos actos cometidos durante a guerra, perante os tribunais para responder pelo que tinham feito ao serviço do Parlamento”. (Idem, pp. 85-86)
Em Londres surgia um partido político representando os interesses dos pequenos proprietários, eram os Levellers, os quais contactavam-se com os agitadores do exército.  “A agitação no exército atingiu o seu ponto culminante na primavera de 1647, com a tentativa para dissolver os regimentos existentes e formar outros destinados à Irlanda. Conduzidos pela cavalaria formada pelos pequenos proprietários rurais, os soldados rasos organizavam-se, nomearam deputados de cada regimentos (‘agitadores’, como lhes chamavam) para um conselho central, empenhados em manter a solidariedade e não entrarem de licença até as suas exigências serem satisfeitas. O grau de organização era muito elevado – fundos para o partido, recrutamento de membros, uma tipografia, contatos com Londres, com os outros exércitos e guarnições e com a armada. Parece não haver dúvidas de que a iniciativa para este movimento de massas veio dos soldados rasos, se bem que muitos dos oficiais menos graduados cooperassem dede o início com entusiasmo. Os generais ( ‘os grandes’, como os Levellers lhes chamavam) hesitaram durante algum tempo, procurando servir de medianeiros entre a maioria ‘Presbiteriana’ no Parlamento e os soldados do exército. Mas quando viram que estes estavam decididos a avançar, participaram do movimento e concentraram-se daí em diante em canalizar as suas energias. Procuravam sobretudo limitar as exigências dos soldados aos aspectos profissional e politico e minimizar o programa social e econômico que os Levellers faziam para enxertar no movimento dos soldados”. (Idem, pp. 86-87)
“O exército e o Parlamento coexistiam agora no Estado como poderes rivais. Em junho de 1647, a fim de evitar que os ‘Presbiterianos’ que faziam parte do Parlamento chegassem a um acordo com o rei nas costas do exército, o alferes de cavalaria Joyce foi enviado pelos agitadores (provavelmente, com a conivência de Cromwell) para render Carlos I. Numa reunião geral que teve lugar no dia seguinte, todo o exército se comprometeu solenemente a não se desagregar até que estivessem asseguradas as liberdades em Inglaterra. Foi formado um Conselho do Exército, no qual se sentavam lado a lado representantes eleitos dos soldados oficiais, com a finalidade de decidirem sobre questões políticas. A Inglaterra nunca mais voltou a ver um controle democrático do exército como o que existiu durante os seis meses seguintes. Empregando o rei como uma arma, o exército marchou sobre Londres. Os principais chefes ‘Presbiterianos’ afastaram-se da Câmara dos Comuns, deixando Cromwell e os ‘Independentes’, temporariamente, com a situação sob  controle; o exército estava definitivamente em posição de influenciar a atuação política”. (Idem, p. 88)
“...a burguesia, cujos interesses os Levellers representavam cada vez mais, desejava grandes modificações. Ao mesmo tempo, a influencia dos Levellers no exército crescia rapidamente. Pretendiam um livre câmbio absoluto para os pequenos produtores, assim como a libertação das grandes companhias mercantis dos monopólios corruptos, que o Parlamento já abolira; exigiam a separação da Igreja e do Estado e a abolição das dizimas; a proteção da pequena propriedade e a reforma da lei dos devedores; e, para assegurarem tudo isto queriam uma república, a extensão dos direitos parlamentares e o direito de voto para todos os homens”. (Idem, pp. 88-89)
“(...) Uma tentativa dos Levellers para ficarem no controle do exército foi frustrada pelos ‘Grandes’ em Ware, em Novembro de 1647, dai resultando a dissolução do Conselho do Exército e o fim da democracia no exército. Entretanto, o rei fugiu da prisão, a guerra civil recomeçou em maio do ano seguinte, e o exército voltou a formar-se com Cromwell à frente”. (Idem, pp. 89-90)
“Após a vitória do exército nessa segunda guerra civil, os ‘Grandes’ e os ‘Levellers’ aliaram-se para afastarem do Parlamento os partidários do compromisso (Pride’s Purge) e levaram o rei a tribunal. Depois de um julgamento sumário, o rei foi executado em 30 de janeiro de 1649, como ‘inimigo da nação. A monarquia foi declarada ‘desnecessária, opressiva e perigosa para a liberdade, segurança e interesse público do povo’ e foi abolida. A Câmara dos Pares, igualmente abolida, era simplesmente ‘inútil e perigosa’. Em 19 de maio de 1649 foi proclamada a república. Mas o Agreement of the People, a extensão dos direitos parlamentares, as exigências econômicas e sociais dos Levellers estavam tão longe de terem sido alcançadas como sempre; sentiram, pois, que tinham sido traídos. Os ‘Grandes’ conseguiram leva-los a uma revolta malograda, que foi isolada e dominada, sendo os seus chefes executados em Burford, em maio de 1649”. (Idem, p. 90)
Relatando a respeito dos interesses dos grupos revolucionários, Hill observa que “no seio da revolução burguesa inglesa, foi o movimento dos Diggers que representou ao máximo os interesses dos que não possuíam bens. Constituiu numa tentativa de proceder por meio da ação direta a uma forma de comunismo agrário, tentativa essa realizada por membros do proletariado rural expropriado, que argumentavam que os grandes senhores tinham sido tão derrotados como o rei, que a vitória do povo tinha liberto o solo de Inglaterra, que lhes cabia agora cultivar”. (Idem, pp. 92-93)
“(...) Na primavera de 1649, um grupo de Diggers começou a cavar um terreno abandonado de St. George’s Hill, no Surrey. Os gentis-homens e os párocos locais, indignados, chamaram a tropa e a colônia comunista foi posta em debanda. Houve tentativas semelhantes em Kent, em Buclinghamshire e em Norhamptonshire, mas o movimento não atingiu grandes dimensões, por representar uma classe pequena, embora em crescimento; o pacifismo e a resistência passiva pregados pelos seus chefes evidenciavam a sua debilidade”. (Idem, p. 93)
Ainda tratando desses movimentos e ideais comunistas, Hill declara que o “ideal comunista de Winstanley foi certo sentido um tanto retrógrado, uma vez que tinham origem na comunidade de aldeia que o capitalismo estava em vias de desintegrar. Porém, os Diggers eram os opositores mais radicais e igualitários da ordem social feudal. As afirmações claras e simples de Winstanley têm ressonâncias contemporâneas. (....) E Winstanley não olhava aprenas para o passado, vislumbrava um futuro...”. (Idem, p. 94)
Christopher Hill levanta alguns pontos importantes para o avanço da economia e do imperialismo inglês em detrimento da democracia e da constituição republicana:
1.              “A  conquista da Irlanda, com a expropriação dos proprietários de terras, e dos camponeses (...)”;
2.              A conquista da Escócia, restabelecendo à antiga relação econômica aberta aos comerciantes ingleses;
3.              A política comercial avançada com o Acto de Navegação de 1651, o qual definia o monopólio inglês de comércio e o confronto contra os holandeses pelos domínios comerciais e coloniais;
4.              Política colonial intensiva, sendo que a Inglaterra passava a dominar a Jamaica e Dunquerque;
5.              Abolição dos domínios feudais, com a mercantilização das terras;
6.              Desarmamento dos Cavaleiros e tomada de terras dos realistas, da Igreja e da Coroa. (Idem, pp. 94-97)
Contudo, em 1653, Cromwell dissolvia o Parlamento Longo e convocou uma assembleia de seus próprios partidários (Barebones Parliament), restabelecendo os interesses da pequena burguesia. Dissolvida novamente a assembleia, foi declarado Lorde Protetor. (Idem, p. 98)
Com o Protetorado, a Igreja passava a ser controlada diretamente pelo Estado, o exército comandava a imprensa em 1655, e, consequentemente, os panfletos oposicionistas tornavam-se ilegais. Assim, o governo fixava-se em torno da baioneta com a profissionalização do exército.
No plano externo, a política econômica sob a liderança do Lorde Protetor tornava-se anti holandesa, pois ambos os países disputavam o comércio. Os Países Baixos, nesse contexto, controlavam regiões coloniais no Novo Mundo, como a Capitania de Pernambuco. Nessa expansão mercantil inglesa, os holandeses e escoceses eram enviados para o domínio ultramarino. Nessa mesma mercantilização, os comerciantes apoiavam e eram apoiados pelo Estado. Como exemplo dos investimentos dos comerciantes, Hill aponta a prosperidade manufatureira de Bristol e Liverpool graças ao tráfico de escravos na segunda metade do século XVII.
Nessa política externa, era significativo o apoio internacional do Protetorado conservador à França. Além disso, as condições internacionais inglesas fortaleceram-se no governo de Cromwell. A preocupação política da sucessão de Cromwell acontecia durante os anos de 1658 e 1659. Também a igreja tolerante do Estado do Lorde Protetor ganhava dissidentes penta-monarquiastas, batistas e quacres. Desse modo, Igreja e Estado de Cromwell, conforme Christopher Hill, era “uma instituição rodeada por igrejas não conformistas, que tinham condições de se sustentar a si mesmas e eram toleradas pelo Estado”. Porém, com a crise da sua sucessão, esses dissidentes ficaram cada vez mais descontentes depois da sua morte em 3 de setembro de 1658. (Hilll, Eleito de Deus, p. 153).
Dois anos depois da morte de Cromwell, seu filho Richard foi deposto. Carlos II assumia o poder por meio do auxílio dos grandes da burguesia. Não obstante, conforme Hill, em As Revoluções Inglesas, “a Restauração não foi de modo nenhum uma restauração do Antigo Regime, tornando evidente, não a fraqueza da burguesia e da pequena nobreza, mas sua força” (HILL, 1989, p. 109). Na perspectiva desse autor, poucas transformações aconteceram a partir do retorno de Carlos II, que possuía apoio entre os mercadores e a nobreza rural.
A Igreja, com a restauração, tornava-se mais rica, dependente do Parlamento. E os realistas, adeptos da Monarquia Antiga, adaptavam-se às novas regras do mercado livre, tornando-se “agricultores capitalistas”, conforme Hill, ou sucumbiam na competitividade.
O rei, com a restauração, tornava-se o primeiro funcionário público e não mais um rico proprietário de terras com rendimento próprios.
No plano econômico, o controle real sobre os monopólios e as guildas (nota-se também a abolição do regime feudal durante as guerras civis) desfaz-se. Assim, para Hill, o comércio e a indústria agora livres expandiram-se rapidamente. Na Restauração não se deu qualquer ruptura na política comercial, imperial ou exterior.
O período da Restauração até a Revolução gloriosa de 1688, segundo Hill, constituíram uma época de austeridade. É significativo dessa situação econômica o receio do ministro Presbiteriano, que em 1666 declarava que “se bem que pouco tempo depois do estabelecimento da nação nos víssemos como a parte desprezada e defraudada. Todavia, de tudo quanto tenho sofrido desde aí, considero como ficando aquém de minha preocupação e receios de então. Nessa altura, estávamos a mercê e impulsos de uma multiplicação inconstante, violenta, sangrenta....”(p.115)
Com a possibilidade de Restauração da monarquia absoluta, Jaime II era expulso do governo e Guilherme de Orange, um estrangeiro, assumia o trono da Revolução Gloriosa de 1688. Esse nome, de acordo com Hill, era explicado pela ausência de “derramamento de sangue” e sem possibilidade de reviver as exigências revolucionárias democráticas.
Discutindo o significado de 1968, para Pocock, os magnatas ingleses articularam a vinda do príncipe, pois havia o risco de nova guerra civil. Também os grupos protestantes viam o perigo da aproximação de Jaime II com o papado. Entretanto, segundo Pocock, a Revolução de 1688, estabelecia o constitucionalismo e que a não ocorrência de uma guerra civil sangrenta na Inglaterra, não era significado de continuidade e de retorno aos grupos conservadores. Dessa maneira, na sua perspectiva, esse momento era marcado por “tensões e clivagens” entre a Igreja e o trono.
Assim, no ano de 1688 era um momento chave para Pocock, dado o florescimento do comércio e do avanço político e econômico externo da Inglaterra com o aperfeiçoamento técnico, principalmente da marinha, a emergência do poder imperial.
Também na Igreja, o impacto da Revolução de 1988 foi percebido por Pockock com a autoridade dos magistrados defendida pelos anglicanos. A igreja, desse modo, passava a defender a legalidade civil, aproximando-se das ideias iluministas na crença da humanidade.
Ainda na política externa, a Inglaterra expandia seu domínio incorporando a Escócia, as conquistas com guerras contra os Irlandeses e reorganizando o império colonial.
Em síntese, Pockock tenta desconstruir a interpretação historiográfica dos Whig, partido da reforma liberal, que precisavam distanciaras revoluções de 1648 e 1688, pois reivindicavam a causa parlamentar, o regicídio e o republicanismo. O autor aponta para uma “desconstrução” das ideias da história do Whig.
Concluindo, a historiografia sobre a Revolução inglesa passou por L. Stone que enfatiza o período pré- revolucionário e faz, segundo Florenzano, a história do “ponto de vista dos vencedores”. (Modesto Florenzano, in: STONE, p. 11-26)
Chistopher Hill compreende a trajetória de Oliver Cromwell no contexto das ideias e das atividades dos revolucionários, analisando a vida do Lorde Protetor relacionada com questões políticas e sociais mais amplas. Esse autor ainda constrói uma perspectiva multifacetada das ações da cultura política durante os períodos mais sangrentos, quando as movimentações sociais e a guerra civil radicalizavam-se.
Por fim, Pocock insere-se em uma perspectiva de compreender as mudanças nas ações políticas e da cultura política, retomando e desconstruindo a historiografia sobre a Revolução Inglesa, mas ao mesmo tempo faz uma história dos conceitos sem esquecer as características mais amplas do período e a circulação de ideias.

Bibliografia
HILL, Christopher. O Eleito de Deus. Oliver Cromwell e a Revolução Inglesa. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.
HILL, Christopher. A Revolução Inglesa de 1640. 2 ed. Lisboa, . Presença, 1983.
HILL, Christopher. Origens Intelectuais da Revolução Inglesa. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
STONE, Lawrence. Causas da Revolução Inglesa. Bauru: Edusc, 2000. 

segunda-feira, 11 de abril de 2016

MODA E ARTE: OBSERVAÇÕES PARA UMA INTERPRETAÇÃO HISTÓRICA. IGOR DE LIMA

O estudo da transformação da moda mantém uma longa tradição analítica relacionada com as obras artísticas, principalmente pinturas. Além disso, as obras de história da arte, da cultura visual e visualidade são fundamentais para estudar as aparências das mais diferentes hierarquias sociais e de gênero.
Pertencente ao Warburg Institute, Erwin Panofsky estrutura o método de análise iconográfico e iconológico muito difundido pelos historiadores da arte. Nesta metodologia, divide a análise em três momentos. A descrição primária, ou chamada de pré-iconográfica, analisando a forma, os assuntos e os eventos das obras artísticas, é o primeiro. Relacionar a imagem com outras fontes, investigando os motivos da sua produção, abordando os temas, conceitos, invenções e as representações fazem parte do segundo momento, chamado de iconográfico. E, por fim, a abordagem iconológica propriamente dita, buscando os valores simbólicos, a “revelação de uma nova atitude emocional”.[1]
 Neste último momento, há também a conexão da obra de arte estudada em comparação com as outras, sendo este a compreensão da lógica imagética, sendo a análise mais profunda da iconologia propriamente dita. Na abordagem de Panofsky, são importantes os significados da obra de arte, compreendidos principalmente por meio do estudo dos assuntos. Caso específico é a presença da tradição clássica e seu reconhecimento no período do Renascimento.
A obra de arte renascentista, de acordo com a metodologia iconológica de Panofsky estava relacionada ao universo humanista, aos movimentos da  Escola Neo-Platônica e da busca distanciada da tradição grego-romana.
Com relação à tradição e inovação, Ernst Gombrich, estudioso do mesmo instituto citado acima, em diálogo com Panofsky, realiza suas interpretações por meio da interdisciplinariedade, pensando na teoria da percepção, estabelecendo conexões entre a História e a Psicologia em suas abordagens.
Também preocupado com os estilos, Gombrich faz a análise lógica das imagens, destacando seus estudos sobre a ilusão do olhar a obra de arte, o primitivismo, a forma plástica, as sensibilidades, os sentimentos, a tradição e criatividade. A respeito deste último assunto, o autor afirma que
“a criatividade não surge do nada. É o impulso de testar as possibilidades e variedades das soluções oferecidas pela tradição artesanal que produz a novidade e originalidade, uma vez que o artesão não aprende apenas a copiar, mas também a variar e a explorar seus recursos ao máximo e a levar suas habilidades ao limite daquilo que a tarefa permite e sugere”.[2]

De acordo com Gombrich, em Arte e Ilusão, as aparências estariam no mundo da ilusão, sendo que os espelhos “enganariam os olhos”.[3] Nesta obra também observa que os livros artísticos [e consequentemente suas imagens] eram ricos em “detalhes” e surpreendentemente ousados, fruto da criação da “modernidade” e do aprendizado. Para ele,
“na interpretação de imagens como na audição de palavras, é sempre difícil distinguir o que nos é dado daquilo que nós mesmos oferecemos como suplemento no processo de projeção que o reconhecimento desencadeia”. [4]

Ainda sobre imagens, o autor destaca aspectos importantes para os historiadores da arte. Esta deve ser interpretada na medida em que a própria imagem não “conta a sua história”.[5] Nesta interpretação, o analisador deve compreender a obra de arte aos poucos, sendo impossível entende-la por completo. Ademais, o olhar do pesquisador

“envolve um processo sequencial que tem algo em comum com a leitura. Naturalmente, conseguimos deslocar nosso foco pelo ambiente com maior facilidade do que absorvemos as letras, palavras e significado da página, mas ambas as atividades são processos essencialmente construtivos que acontecem com o tempo.”[6]

Ao debater sobre a natureza da história da arte, Gombrich observa que é muito importante para a pesquisa a necessidade de realizar questionamentos para a análise das fontes, a procura por relações interdisciplinares [ no caso dele, principalmente, entre história e psicologia], as investigações das tradições dos ofícios artesanais; bem como o conjunto de valores artísticos.  Além disso, nota os limites das interpretações das imagens, principalmente quando se estuda as representações, pois o pesquisador deve deixar claro quando se trata de especulações.[7]
Estudando as pinturas e a experiência artística no Quatrocentos italiano, Baxandall afirma logo no prefacio que a “história social e a história da arte são contínuas, uma oferece insights para outra”.[8] A partir desta relação, o autor analisa no primeiro momento a relação entre a clientela e artistas, bem como os contratos entre ambas as partes e os materiais artísticos. Nestes contratos e nas referencias dos materiais, encontram-se dados importantes sobre as cores, como o caro azul ultramarino.
Nesta parte, observa que a mudança na moda podia indicar uma transformação nas aparências das representações pictóricas. Exemplo disto, nota que o dourado e novamente o azul ultramarino passavam a ser “menos importante” nos contratos ainda no século XV.[9]
No segundo momento da obra, “o olhar do período”, Baxandall enfoca as mudanças na experiência visual e, portanto, nas convenções representacionais. Ou seja, as aparências expressivas e luxuriantes, bem como os gestos corporais possuíam características importantes para o olhar do Quatrocentos Italiano. Segundo o cronista da época Alberti, estes gestos representavam os “movimentos da alma” O mesmo Alberti destacava a necessidade das belas cores, como o verde ou o azul, para a maior graça das imagens pictóricas.[10]
Baxandall aponta que os pintores precisavam ter conhecimento anatômico do corpo humano, bem como de pensamento abstrato matemático como valorizar a aparência das suas clientelas. Por fim, o autor analisa as práticas sociais visuais presentes nas pinturas do século XV. Ornato, composições, cores e variedades nas formas foram preocupações importantes dos oficiais da arte naquele momento histórico.
Fornecendo linhas de pesquisas interessantes para os historiadores da arte, Baxandall destaca os aspectos do ofício artístico como o trabalho técnico. Nesta linha temática, Enrico Castelnuovo discute as transformações do retrato italiano. Sobre o caráter público do representado na obra de arte, o “retrato de Estado”. Afirma que este tratava de “evidenciar os sinais característicos do exercício do poder, quer nos trajes, nos atributos e na pose, quer na expressão do olhar”.[11]
Castelnuovo observa a difusão do retratado no final do Quinhentos. Ou seja, havia uma maior variedade camadas sociais representadas nas obras de arte além da “clientela principesca”. Esses soberanos eram “representados com os signos e símbolos do seu poder”.[12]
Com relação `as representações das aparências, Peter Burke, em uma síntese historiográfica sobre a história da Arte, afirma que “o valor das imagens” é imprescindível para a História da Indumentária.[13] Como exemplo, cita as análises de Fernand Braudel sobre a moda no cotidiano e a cultura indumentária de Daniel Roche, em A cultura das aparências.[14]
A partir do estudo do consumo indumentário e da História da Arte, Ulinka Rublack, em Dressing up: cultural identity in Renaissance Europe, desenvolve uma rica análise das aparências na sociedade renascentista. Em sua obra, aborda as mudanças da cultura indumentária e da “práticas visuais” com relação às identidades sociais, aos grupos religiosos, às “nações”, no gosto e sensibilidades. Neste último ponto, destaca a cultura visual, material e a perspectiva da história dos sentimentos no Renascimento. Ulinka Rublack analisa a cultura visual  do vestir-se nas cidades alemãs quinhentistas, destacando a identidade da aparência e  as indumentárias multicolores da população comum, influenciando muitas vezes a moda e os gostos das camadas privilegiadas.[15] A sua leitura também   incentiva o olhar para a “aparência dos outros”.[16]
Segundo a autora, as nações estavam diretamente conectadas às posições políticas regionais e às relações de gênero. Homem, mulheres,  por vezes crianças e os considerados jovens, representavam as suas nações com vestimentas específicas. Estas figuras expressavam visualmente ao mesmo tempo identidades e distinções. Para Ulinka Rublack, as vestimentas femininas dos livros de costumes possuíam um “significado político”, simbolizando não apenas uma “moral cívica”, mas também a virtude da “nação”. No mundo germânico, estas vestimentas das “nações” eram construídas a partir dos documentos; da produção de um conhecimento histórico fundado no passado bárbaro; nos símbolos de gênero; em morais geográficas; e nos modos de aparência dos cavaleiros.
Nesta primeira metade do Quinhentos, a moda era a materialização da inconstância. A imagem do homem nu, presente nos impressos, tornava-se rapidamente um ícone por toda a Europa. Contudo, no período da Reforma, os religiosos, como Martinho Lutero, possuíam maneiras performáticas e visuais de vestir.[17] As imagens e os textos, presentes juntos nos panfletos da Reforma,  conectavam com a identidade dos leitores reformistas, bem como  reiteravam os “princípios do estilo estético baseado em um largo e homogêneo campo monocromático”, como a vestimenta negra.[18]
A experiência visual fazia com que a mudança acelerada dos modos de vestir fosse uma experiência concreta.[19] Essas visualizações das vestimentas reais nos livros de costume traduziam em grande parte os ideias políticos e sociais dos seus produtores. Contudo, mesmo para o estudo das vestimentas reais, para a compreensão  da história dos modos de vestir são necessárias análises de outras fontes como os retratos renascentistas.[20]
No período do Renascimento, diversidades de tecidos importados e variações no vestir de roupas de luxo foram escolhas de poucos. Contudo, estudos apontam diferenças nas aparências mesmo entre aqueles de condições sociais menos favorecidas.
Apesar das dificuldades em levantar dados sobre têxteis e indumentárias no período, é a partir da busca pelas mais variadas tipologias documentais que se pode conhecer as aparências dos outros. Encontrar referencias sobre cultura material nas fontes mais diversificadas é importante para analisar a aparência das mais variadas camadas sociais. Ulinka Rublack defende a ideia de que “inovação da moda não se restringia à elite aristocrática, mas movia-se em múltiplas direções”.[21]
Outro aspecto a ser destacado em sua obra é a habilidade analítica das fontes visuais e da cultura material. Rublack conecta com maestria o contexto da cultura alemã a partir da sua leitura das obras artísticas, como as obras de Dürer, e imagens dos impressos quinhentistas alemães, indumentárias e outros artefatos.
No contexto castelhano, Máximo García Fernández observa que os espanhóis viviam “obcecados pela aparências, pela representação diária de sua imagem individual e por um permanente desejo mais que simbólico de aparecer bem”.[22] Também sugere que a sociedade castelhana vestia-se “mais aberta, complexa, oscilante e indisciplinada do que a ortodoxia cotidiana impunha por costume”.[23]
Embora houvesse limites econômicos para o consumo de artefatos luxuosos, a cultura popular produzia suas próprias vestimentas. Principalmente, as mulheres das camadas populares. Essas reformavam seus vestidos e as roupas de suas famílias, deixando-os mais refinados.[24]
Entretanto, nem somente na corte e no consumo de artefatos luxuosos estava a moda renascentista. Ulinka Rublack defende a tese de que também nas camadas mais simples da população, na Renascença, construía-se moda. A autora salienta a mudança da moda por meio da “competição sexual”, dos “estilos emotivos” e da “expressão criativa” de um amplo espectro de grupos sociais germânicos.[25] Nesta perspectiva, a moda não estava somente relacionada a posições hierárquicas e acessos econômicos, mas também a questões relacionadas à cultura. Por meio da análise das indumentárias e da cultura visual, Rublack realiza uma história das sensibilidades e comunicações visuais.




[1] Erwin Panofsky. Studies in Iconology. Humanistic Themes in the Art of the Renaissance. New York: Hagerstown, San Francisco, London: Icon Editions (1th ed. 1939), 1972, p. 7.
[2] Richard Woodfield (Org.) Gombrich Essencial. Textos selecionados sobre arte e cultura. Porto Alegre: Bookman, 2012, p. 363.
[3] E. H. Gombrich. Arte e Ilusão. Um estudo da psicologia da representação pictórica. São Paulo: Martins Fontes, 1986, p. 103.
[4] Idem, p. 211.
[5] Richard Woodfield. Op. Cit., p. 46.
[6] Idem, p. 156.
[7] Idem, p. 459-461.
[8] Michael Baxandall. Painting & Experience in Fifteenth Century. Italy. Oxford: Oxford University Press, (1th. 1972), 1988, p. 1.
[9] Idem, p. 15.
[10] Apud. Idem, p. 58.
[11] Enrico Castelnuovo. Retrato e sociedade na arte italiana. Ensaios de história social da arte. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 54.
[12] Idem, p. 103.
[13] Peter Burke. Testemunha Ocular. História e Imagem. Bauru, SP: Usc, 2004, p. 90.
[14] Daniel Roche. A cultura das aparências. Uma história da indumentária (Séculos XVII-XVIII). São Paulo: Senac, 2007.
[15] Ulinka Rublack. Dressing up. Cultural identity in Renaissance Europe. Oxford: Oxford University Press, 2010.
[16] Idem, pp. 177-210.
[17] Idem, p. 101.
[18] Idem, p. 121.
[19] Idem, p. 145.
[20] Idem, pp. 148-149.
[21] Idem, p. 6.
[22] Máximo García Fernández. Cultura material y consumo. Rutinas cotidianas dinámicas. In: PEÑA, Manuel (ED.). La vida cotidiana en el mundo hispânico (siglos XVI-XVIII). Madrid: Abada, 2012, p. 60.
[23] Idem, p. 61.
[24] Idem, p. 64.
[25] Ulinka Rublack (2010). Op. Cit , pp. 264-265.