segunda-feira, 22 de maio de 2017
quinta-feira, 9 de março de 2017
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017
terça-feira, 10 de janeiro de 2017
Romantismo, Política e Cultura no Mundo Moderno. Notas historiográficas. Igor de Lima
Löwy & Saye, em um pequeno belo livro,
Romantismo e Política, começavam o
debate questionando: “O que é Romantismo? Enigma indecifrável, verdadeiro
quebra-cabeça chinês, o fato romântico parece desafiar a análise científica não
apenas porque sua vasta diversidade resiste aparentemente a qualquer tentativa
de redução a um denominador comum, mas também e sobretudo por seu caráter
fabulosamente contraditório, sua natureza de concidentia oppositorium: a um só
tempo (ou era) revolucionário e contra revolucionário, cosmopolita e utopista,
democrático e aristocrático, republicano e monarquista, vermelho e branco,
místico e sensual. Contradições que atravessam não apenas o ‘movimento
romântico’, mas a vida e obra de um único e mesmo autor e, às vezes, de um
único e mesmo texto”. (p. 11)
Os autores analisam em conjunto boa pare
dos autores românticos e definem românticos até mesmo pensadores do século XX,
como Lukás, demarcado como romântico “anticapitalista”. (Idem, p.12)
Para os autores, “existe um certo número
de trabalhos marxistas que dão conta, de maneira dialética, a um só tempo das
contradições e da unidade essencial do romantismo, e não negligenciam suas
potencialidades revolucionárias. Ernst Fischer, por exemplo, define romantismo
como ‘um movimento de protesto – de protesto apaixonado e contraditório contra
o mundo burguês capitalista, o mundo das ‘ilusões perdidas’, contra a dura
prosa dos negócios e do lucro. A cada virada dos acontecimentos, o romantismo
dividiu-se em correntes progressistas e reacionárias. O que todos os românticos
tinham em comum era a antipatia pelo capitalismo (alguns encarando-o de um
ponto de vista aristocrático, outros numa perspectiva plebeia)”. (Idem, p. 16)
A perspectiva adotada pelos autores é a
idea de visão de mundo de Lucien Goldman, da longa tradição do pensamento
alemão. Eles discutem as visões de mundo dos tempos modernos, pós revolução
Francesa. Para os mesmos, “percebemos que há uma lacuna, sobretudo no século
XIX, em que o pensamento dialético e o positivismo, que continua a corrente
racionalista, certamente não representariam as únicas visões de mundo
predominantes da época. A totalidade significativa que preencheria essa lacuna
seria precisamente o fenômeno cuja primeira análise nos propomos a esboçar o
romantismo anticapitalista”. (Idem, p. 18)
Normalmente, o romantismo seria compreendido
como uma “desilusão” da Revolução Francesa. Não obstante, o mesmo contrapõe-se
ao desenvolvimento do capitalismo a partir da segunda metade do século XVIII na
Inglaterra. Na Alemanha, o Romantismo é testemunhado com o movimento Sturn und
Drang dos anos 1770 e sobretudo depois da obra de Werter de Goethe. Essa visão
de mundo anticapitalista sobrevive até as décadas de 1860 e 1870. (Idem, pp.
19-20). Enfim, “o Romantismo começa como revolta contra um presente concreto e
histórico”. (Idem, p. 20) Essa visão de “mundo desencantado” provém da Ética
Protestante e do Espírito do Capitalismo de Marx Weber.
Segundo os autores, “a sensibilidade
romântica percebe mais ou menos consciente e explicitamente – nessa realidade,
características essenciais do capitalismo moderno. O que é recusado, aquilo
contra o que se revolta, não é um momento presente qualquer, e sim um presente
especificamente capitalista e percebido em suas qualidades mais constitutivas.
Se por vezes há consciência da exploração de uma classe por outra (no campo
literário encontramos um nítido exemplo disso no retrato de John Bell, no
Chattterton, de Vigny), tal consciência está longe de estar sempre presente. Em
contrapartida, o que todas as tendências dessa visão denunciam por unanimidade
são as características essenciais do capitalismo, cujos efeitos negativos
atravessam as classes sociais, vividos como miséria por toda parte na sociedade
capitalista. Trata-se do todo poderoso, nessa sociedade, valor de troca – do
mercado e do dinheiro - , logo, do fenômeno de reificação. E em corolário à
reificação generalizada, a fragmentação social, o isolamento radical do
indivíduo na sociedade. Pois uma sociedade fundada sobre o dinheiro e sobre a
concorrência separa os indivíduos em nômades egoístas, hostis e indiferentes
aos outros. E sobretudo contra esses traços – os princípios profundos da
opressão que se exercem globalmente na sociedade – que o romantismo
anticapitalista se insurge”. (Idem, p. 21)
O movimento romântico está relacionado à
“experiência da perda” e revolta-se “contra o capitalismo: no real moderno algo
precioso se perdeu, tanto no que concerne ao indivíduo quanto à humanidade. A
visão romântica caracteriza-se pela dolorosa convicçãoo de que faltam ao real
presente certos valores humanos essenciais que foram alienados. Sentindo
aguçado, portanto, da alienação. No presente, uma alienação vivida
frequentemente como exílio”.(Idem, p. 22)
A nostalgia do passado e fuga do presente
capitalista, faz os românticos procurarem a origem dos romances cortês de
cavalaria, uma época de ouro em que estava-se livre da busca incessante por
dinheiro e os valores eram outros, de honra e coragem. Conforme os autores, a
“experiência de perda de um presente capitalista, nostalgia do que foi perdido,
localizado num passado pré-capitalista, e busca do que foi perdido no presente
ou no futuro: estes são os principais componentes da visão de mundo que aqui
exploramos. O que, porém, foi mesmo perdido para a sensibilidade romântica?”.
(Idem, p. 25)
Os romantismos foram divididos em tipos
ideais, como o Romantismo “restitucionalista”, marcado pela direita monarquista
e exemplificado pelo compositor Wagner; o Romantismo conservador, defensor da
ordem anterior à Revolução Francesa, cujo representante maior é Edmundo Burke;
o Romantismo Fascista; o Romantismo resignado, com uma visão trágica do mundo,
emblemático com George Simmel e Thomas Mann; o Romantismo Liberal, com
expoentes importantes como escritor Vitor Hugo e o historiador Michelet; e, por
fim o Romantismo Revolucionário e ou utópico. Este último possui uma série de
fragmentações voltados geralmente aos pensamentos das esquerdas. (Idem, pp.
29-31)
Sonhar em voltar à Idade Média, com
retorno ao passado nostálgico foi característica marcante do Romantismo
Restitucionista, mais focalizado na pré-nascente Alemanha. Já no Romantismo
Conservador, o maior representante era Edmind Burke e sobre este ainda, Löwy e
Sayre, afirmam:
“Um exemplo concreto que permite iluminar
melhor essa característica é o pensamento de Edmund Burke. Sua obra provém sem
dúvida do romantismo extremamente hostil à filosofia das Luzes, opõe em seu
célebre panfleto contra a Revolução de 1789 (Reflections on the Revolution in
France, 1790) as tradições entre cavalheiros, o velho espírito feudal da
vassalagem, à ‘era dos sofistas dos economistas e dos calculadores’,
estabelecido pelos revolucionários, os sábios e antigos preconceitos sociais,
frutos de uma ‘educação gótica e monacal’, à filosofia bárbara produzida por
‘corações frios’; a venerável propriedade de terras, herança de nossos avós, às
especulações sórdidas de agiotas e de judeus. Daí o extraordinário impacto de
seu livro na Alemanha, onde ele contribuíu para modelar as concepções do
romantismo político”. (Idem, p. 47)
Ou seja, a doutrina de Burke é anti-burguesa
e anti-revolucionária por excelência, partidária do Whig, grupo conservador que
se apoiava na Revolução Gloriosa de 1688.
O Romantismo Liberal possui uma definição
mais fugidia, havendo problemas em delimitar os termos de “liberal”, “democrático”,
“republicano”. O maior exemplo deste
grupo eclético é Vitor Hugo. (Idem, pp. 57-61).
Já o Romantismo Revolucionário e ou
Utópico podem ser subdivididos e:
1.
O Romantismo Jacobino-Democrático,
predominantemente crítico ao feudalismo e representado por Rousseau e Stendhal.
A respeito deste os autores observam que:
“A existência de um tipo
de Romantismo anticapitalista que se pode chamar de jacobino-democrático é uma
testemunha eloquente contra a afirmação da oposição absoluta entre romantismo e
espírito das Luzes. Longe de haver contradição e conflito necessário entre
esses dois movimentos, há uma parte importante do primeiro que é a herança
espiritual do segundo, a ligação se fazendo, no mais das vezes, por intermédio
de Rousseau, situado na junção entre os dois. O que caracteriza esse tipo de
romantismo – e o que o distingue do tipo liberal – é que constrói uma crítica
radical a um só tempo contra a opressão das forças do passado – a monarquia, a
aristocracia e a Igreja – e contra as novas opressões burguesas. Essa crítica
se faz (com exceção dos escritores – sobretudo Rousseau – que a precedem) em
nome da Revolução Francesa e dos valores representados por sua tendência mais
radical: o jacobinismo. Este se desdobra, às vezes, em um bonapartismo, na
medida em que Napoleão é visto como uma extensão eficaz e heroica do jacobinismo;
a admiração por Bonaparte paca, com frequência, entretanto, no 18 Brumário.
Diferentemente dos liberais, os jacobinos-democratas não chamam por evoluções
lentas, por compromissos e soluções demoradas, mas ante por rupturas
revolucionárias e subversões profundas”. (Idem, pp. 61-62)
Como pensadores deste
grupo, pode-se destacar, Stendhal, Heine e Willian Blake, este último escrevia
The French Revolution, nos anos de 1790-91. Para Shelley, outro membro deste
grupo, “a liberdade está inscrita na natureza do próprio mundo por Deus no
momento da criação....”. (Idem, p. 65) Ou ainda, “a idade que se aproxima
reflete-se no passado como em um espelho”. (Idem)
2.
O Romantismo populista, o qual criticava o
capitalismo industrial e as monarquias, cujo representante maior é Tolstoi;
3.
Romantismo Libertário Marxista, crítico ao
capitalismo, defensor da utopia socialista, defendido pelo Marx e os pensadores
marxistas, como Luckás, Bloch, Escola de Frankfurt e E. P. Thompson. Estes se
preocupavam com a luta de classe e a revolução social. Hebert Marcuse é
destacado como “o mais eminente romântico marxista contemporâneo”. (Idem, p.75)
Contudo, para os autores,
“é evidente que os produtores da visão do mundo romântica anti-capitalista são
certas facções tradicionais da intelligentsia, cujo modo de vida e cultura são
hostis à civilização industrial burguesa: escritores independentes, religiosos,
ou teólogos (muitos românticos são filhos de pastores), poetas e artistas,
mandarins universitários, etc. Qual é o fundamento social dessa hostilidade?”.
(Idem, p. 38)
O acontecimento importante
para os românticos foi a Revolução Francesa, havendo uma “corrente política e
intelectual que parece desconcentrar esse quadro clássico e bem ordenado: os
utopistas românticos”. (Idem)
Em outro livro, Revolta e
Melancolia, os autores retomam à questão da origem do movimento cultura,
distinguem a palavra do movimento. A palavra tinha sua origem nos substantivos
‘romantismo’, ‘romanticismo’, romanticism (inglês), Romantik (alemão) para caracterizar
os movimentos culturais contemporâneos. No entanto, os adjetivos remontavam ao
século XVII, com o retorno dos romances medievais, focando “as emoções” e a
“liberdade de imaginação”. (LÖWY, Michel & SAYE, Robert, 1995, pp. 70-71)
O Romantismo inglês surgia
em Coleridge e Wordsworth na passagem do século XVIII ao XIX, enquanto que na
França floresceria vinte anos mais tardes.
Löwy e Saye baseiam-se nas
ideias de Jacques Bousquet, para quem o fenômeno do romantismo é considerado um
‘imenso movimento cultural’, cujo começo era por volta de 1760 e ainda não
terminara. Esses autores o definem como o movimento da “generalização do
mercado, a cultura, a arte e literatura são, de modo algum, poupadas; na
segunda metade do século XVIII, intelectuais, artistas e escritores
tornaram-se, incomparavelmente mais do que antes, agentes livres nos diferentes
mercados de seus produtos culturais. Vai desaparecendo cada vez mais o sistema
de mercenato em proveito das vendas de livros e pinturas. Portanto, os produtos
da cultura têm de enfrentar a contradição entre o valor de troca de utilização
e o valor de troca de seus próprios produtos; o novo sistema sócio-econômico
vai atingi-los no mais íntimo deles mesmos”. (Idem, p. 72)
Para os mesmos autores,
nos países ao Leste Europeu e na região do Mediterrâneo, o “impulso
nacionalista” destacava-se e, consequentemente, as tendências românticas e a
modernidade não se apresentavam com tanta força, mesmo porque a burguesia era
“carente” de forças e a aristocracia “decadente”. (Idem, pp. 82-83)
Nesta perspectiva,
Hobsbawn, em Era das Revoluções, destacando o quadro do contexto da Revolução
Francesa e Industrial, afirma a primeira metade do século XIX, era “o triunfo e
a mais elaborada expressão das radicais ideologias de classe média liberal e da
pequena burguesia e sua desintegração sob o impacto dos Estados e das
Sociedades que haviam contribuído para criar, ou pelo menos recebido de braços
abertos. O ano de 1830, que morria o renascimento do maior movimento
revolucionário da Europa Ocidental depois da quietude que se seguiu à vitória
de Wartello também marca o início da sua crise. Tais ideologias ainda
sobreviviam, embora bastante diminuídas: nenhum economista liberal clássico do
último período tinha a estatura de Smith ou de Ricardo (nem sequer J. S. Mill,
que se tornou o típico filósofo economista liberal britânico na década de
1840); nenhum filósofo clássico alemão viria a ter o alcance ou o poder de Kant
e Hegel; e os girondinos e jacobinos da França de 1830, 1848 e depois disso
seriam pigmeus comparados a seus ancestrais de 1789-94. Os Mazzinis da metade
do século XIX não podiam se comportar de forma alguma com os Jean Jacques
Rousseau do século XVIII. Mas a grande tradição – a principal corrente de
desenvolvimento intelectual desde a Renascença – não morreu, foi transformada
em seu oposto. Marx foi, em estatura e enfoque, o herdeiro dos economistas e
filósofo clássicos. Mas a sociedade do qual ele esperava se torar profeta e
arquiteto era muito diferente deles” (HOBSBAWN, p. 349)
A presença da política,
neste momento, estava presente na música, como nas óperas, as quais eram
segundo Hobsbawn “escritas ou consideradas como manifestos políticos e armas
revolucionárias”. Além disso, continuando seu argumento, o autor afirma que “o
elo entre assuntos públicos e as artes é particularmente forte nos países onde
a consciência nacional e os movimentos de libertação ou unificação nacional
estavam se desenvolvendo. (...) Não foi por acaso que o despertar ou
ressureição das culturas literárias nacionais na Alemanha, na Rússia, na
Polônia, na Hungria, nos países escandinavos e em outras partes, coincidisse
com – e de fato fossem sua primeira manifestação – a afirmação da supremacia
cultural da língua vernácula e do povo nativo, ante uma cultura aristocrática e
cosmopolita que constantemente empregava línguas estrangeiras. É bastante
natural que este nacionalismo encontrasse sua expressão cultural mais óbvia na
literatura e na música, ambas artes públicas, que podiam, além disso, contar
com a poderosa herança criadora do povo comum – a linguagem e as canções
folclóricas. É igualmente compreensível que as artes tradicionalmente
dirigentes – cortes, governo, nobreza – a arquitetura e a escultura, até certo
ponto, a pintura, refletissem menos estes renascimentos nacionais”. (Idem,
355-356)
Dentre estas novas
culturas nacionais, Hobsbawn destaca as óperas italianas, os museus nacionais,
como o Louvre e a National Gallery de Londres, fundados em 1826. Contudo, “mesmo as artes de uma pequena
minoria social ainda podem fazer ecoar o trovão dos terremotos que abalam toda
a humanidade. Assim ocorreu com a literatura e as artes do nosso período, e o
resultado foi o ‘romantismo’. O autor destaca ainda a dificuldade de definir
este movimento, mas salienta o aspecto de que os “gênios literários” mantinham
contato direto com a vida boemia e o submundo. (Idem, pp. 357-362) “A ansiedade
que convertia em obsessão nos românticos era a recuperação da unidade perdida
entre homem e natureza. O mundo burguês era profunda e deliberadamente
anti-social. (...)”. Esse mundo deixou “as suas almas desnudas e solitárias.
Deixou-os sem pátria e sem lar, perdidos no universo... (Idem, p. 365)
Na Inglaterra, segundo
LÖWY e SAYE, “é a partir de 1760 que uma mudança cultural se torna aí
manifesta. Os sintomas dessa transformação se encontram maciçamente na
literatura e nas outras artes, e em medida mais reduzida somente na filosofia e
no pensamento político social que são amplamente dominados pela corrente
utilitarista. Portanto, sobretudo nas artes, um certo número de elementos
românticos se impõem e generalizam, sendo que o mais importante é a nostalgia
do passado”. (LÖWY, Michel & SAYE, Robert, 1995, pp. 83-84)
Ambos continuam suas
análises afirmando que, no campo do pensamento histórico, “a nostalgia da Idade
Média e da Renascença Inglesa – de fato, muitas vezes, as duas são entendidas
como fazendo parte de uma única época passada – mas também nas sociedades
‘bárbaras’ – nórdicas, gaélicas, escocesas, etc. – assim como da Antiguidade
grego-romana primitiva ou da sociedade camponesa tradicional. Ao mesmo tempo,
desenvolveu-se um culto de sentimento, da subjetividade, sobretudo em seus
aspectos lúgubres e melancólicos, uma celebração da natureza e uma crítica ao
espírito mercantilista e de industrialização”. (Idem)
Diferentemente, na França,
devido aos movimentos da Enciclopédia e do Iluminismo, o Romantismo exprimiu-se
sobretudo nas ares e na literatura (Idem, p. 84) Entretanto, a valorização da
“sensibilidade, melancolia, sonho, mal do século, deserto da cidade, natureza
idílica, natureza selvagem, a “faziam-se presentes”. Conforme os autores, Rousseau
era “o autor-chave na gênese do Romantismo Frances porque, ainda em meados do
século XVIII, soube articular toda a visão romântica do mundo”. (Idem, pp.
84-86)
Com o movimento Sturn und
Drag, na década de 1770, o qual abarcava os jovens Schiller e Goethe (Werther,
1764), na Alemanha, despontava o movimento romântico. Essa obra acabava por
arrebatar grande comoção em seus leitores no período.
Os autores destacam a
coexistência do movimento romântico com o iluminismo durante a passagem do
século XVIII ao XIX. Sintetizam a ideia de que encontram “toda espécie de
mistura, articulações, justaposições, hesitações e passagens entre as duas
perspectivas – com toda a certeza – divergentes, mas não totalmente
heterogêneas. Na célebre cartas de Schiller e Goethe, verifica-se a passagem de
um romantismo predominante para um espírito iluminista, também predominante,
sem ter existido ruptura completa entre duas mentalidades em estado puro”.
(Idem, pp. 88-89)
Para ambos, o Werther de
Goethe “representa uma critica da ambivalência e mentalidade burguesas, tanto
como aristocráticas”. Outro caso de complexidade e justaposição das
mentalidades era Rousseau, pois este escreveu textos relacionados “sobretudo
com o iluminismo”. (Idem, p. 89)
Elias Thomé Saliba, em As
utopias românticas, analisa “o romantismo – e o redemoinho da imaginação
utópica por ele desencadeado”, entre fins do século XVIII e meados do XIX, na
história da Europa. (SALIBA, p. 14)
Saliba destaca as
importâncias das Revoluções Francesa e Inglesa para a “reflexão romântica”. Em
outras palavras, os intelectuais europeus foram afetados profundamente pelos
acontecimentos revolucionários franceses. Contudo, a “vitória de Napoleão,
interpretada inicialmente, por Hegel como a possibilidade de implantação dos
princípios revolucionários, teve sua contrapartida no aprofundamento ainda maior da fragmentação do poder político
– da destruição da ‘unidade nacional’ alemã, sefundo Fichte. Assim, a vitória
dos princípios de liberdade poderia destruir a unidade, ao passo que a
imposição da unidade nacional poderia levar a destruição da liberdade. Por
menos real que fosse, esta polarização ambígua, entre questão nacional e
princípios revolucionários, ajudou a prolongar a instabilidade nos registros,
do sismógrafo, principalmente, entre os sábios e artistas alemães”. (Idem, p
22)
“Mme de Staël, em 1813,
caracterizou com rara astúcia, esta ambiguidade da intelligentsia alemã,
lembrando o conhecido epigrama: ‘os ingleses têm o império dos mares; os
franceses o da terra, mas os alemães apenas o do ar’. E completava, com um
toque ácido de sabedoria calculista: ‘a classe dominante alemã permaneceu
feudal e a classe intelectual perde-se em sonhos inúteis. A extensão do
conhecimento nos tempos modernos serve para enfraquecer o caráter, quando ele
não é reforçado pelo hábito dos negócios e o exercício da vontade. Em todo caso
é um registro marcante e sincero de uma sensibilidade feminina impressionada
com a subordinação das universidades, professores e da vida intelectual ao
poder político dos príncipes alemães; aquilo que um Schopenhauer encolerizado cognominava
de a ‘típica raça alemã dos intelectuais amanuenses’. Embora prosaica, a
caracterização tinha endereço certo: as profundas diferenças filosóficas e a
inveja pessoal que Schopenhauer nutria por Hegel, no auge do prestígio deste
último, por volta de 1820, na Universidade de Berlim”.
“Toda a tensão incoercível
de Napoleão em direção ao futuro, termina em fracasso exemplar; um fracasso
que, segundo os românticos, transcendia a sua própria particulariedade
bibliográfica, estava além das forças humanas, pois tratava-se de um fracasso
exemplo”(SALIBA, p. 24)
“Mal do século? Sem
dúvida, mas não uma mera inquietação metafísica ou existencial. O esboçar do
Antigo Regime, o traumatismo da Revolução, a mesquinharia de uma restauração
medíocre, a tibieza ou inexistência de opções sociais duráveis – todos estes
eventos foram registrados como abalos pelo sismógrafo francês da primeira
geração do século. A princípio, a geração de 1820 da intelligentsia francesa
identificava seu destino ao de uma aristocracia, posta um tanto a margem do
poder, daí certo sentimento neurastênico de inutilidade, de cansaço antecipado,
que transpira de certos registros de época. Mas, posteriormente, a maior parte
dos artistas e escritores franceses do período, próximos à burguesia, viram-se
mais propensos a defender e tematizar sobre um imaginário social, no qual os
homens passavam a depender menos dos privilégios herdados e mais dos talentos
individuais (...)”. (SALIBA, pp. 25-26)
“Este fracasso invencível
dos projetos mais consequentes de transformação social, inerentes à Revolução
Francesa, fracasso vivenciado sob a formação de uma paralisante crise de
identidade, foi propício ao engendrar do ingrediente básico das utopias
modernas: o desenraizamento do tempo presente. (....)” (SALIBA, p. 27)
“Resultante de uma nova
tomada de consciência da história, vislumbra-se aí o tema da infinita dinâmica,
inspirado nos famosos oráculos heraclitianos e, de resto, incorporado à
compreensão romântica de um progresso infinito, cuja realização dependia
basicamente da consumação e do tempo da história. (....)...esta idolatria do
tempo e da história constituiu, no fundo, resultado mental do colapso da
continuidade da história...”
“Esta idolatria do tempo e
da história que transformou as utopias românticas em autenticas ‘utopias de
final aberto’ também afetou, e profundamente a concepção do que se entendia por
política. A política não poderia ser mais, então, um conjunto de decisões
pragmáticas ou uma questão de disposições práticas, aplicáveis num determinado
momento ou ligar, por obra cristalino das autoridades constituídas. Nem, quando
muito, a ação resultante de leis constitucionais ou de legitimidade adquirida.
A política, na sua acepção geral, e, segundo a óptica das utopias românticas,
transcendia em muito todas estas prescrições. Colocada num patamar cultural
superior, de autentico humanismo universalista, considerava imperativo de
consciência decifrar os ditados desta potência obscura, a história, e
esforçar-se por cumprir as instruções escritas numa espécie de ‘livro do tempo’
(...)”. (SALIBA, pp. 66-67)
“Ao menos parte desta
ânsia pela universalidade, desta tensão incoercível pela harmonia viva do povo,
persiste no âmago do inconsciente coletivo, ainda que soba forma de migalhas
utópicas, fragmentos de mitos cotidianamente esquecidos e dissolvidos nas
espirais do tempo. Michelet (sempre ele) resumiu como nenhum outro esta
ansiedade utópica, quem sabe irrealizável ao declarar: ‘Temos apenas um único
desejo: perdermos no grande todo’. E Michelet terminaria, como grande parte de
seus contemporâneos, na dúvida e na resignação”. (SALIBA, p. 67)
“As utopias românticas,
gestadas na aurora da sociedade industrial e alimentado-se no torvelinho das
revoluções burguesas, surgiram como uma resposta ao desafio do seu tempo.
Diferentemente dos muitos antigos, os quais forjavam a cidade utópica como uma
espécie de reino milenar de paraíso futuro e eram, em muitos casos,
inacessíveis ao mais comum dos mortais, as utopias modernas e, em especial as
modalidades românticas....se esforçaram por imaginar um mundo ideal mais
acessível ou pelo menos, mais próximo dos homens reais”. (SALIBA, p. 89)
“O que não dizer que as
utopias, tanto as antigas quanto as modernas, esgotem-se no seu tempo;
Exatamente porque se esforçam em pensar nas impossibilidades e obstáculos do
presente, projetam-se para o futuro, lançando-se nos imprevisíveis caminhos da
invenção política e social”(Idem)
“Esta instrumentalização
das utopias românticas articulou-se, não raro, através de uma utilização
perversa e esterilizadora dos fins e valores contidos nos projetos utópicos.
Utilização que objetivava, exatamente, esconder tais finalidades e valores,
abstraindo-os e despojando-os de toda sua inquietante riqueza. Daí talvez esta
diferença contemporânea nas utopias românticas, este mal-estar do mundo moderno
que, preso à realidade dos fatos consumados e incapaz de conceber outras
alternativas, revela-nos uma das suas mais solventes facetas: esta ansiedade
quase doentia em domesticar e entravar o futuro social”. (SALIBA, p. 90)
Bibliografia
HOBSBAWN, Eric J. A era das revoluções (1748-1848). Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1981.
LÖWY, Michael. & SAYE, Robert. Romantismo e Política. São Paulo: Paz e
Terra, 1993.
LÖWY, Michel & SAYE, Robert. Revolta e Melancolia. O Romantismo na
contramão da modernidade. Petrópoles, RJ: Editora Vozes, 1995.
SALIBA, Elias Thomé. As utopias românticas. São Paulo: Brasiliense, 1991.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
NOTAS SOBRE O ILUMINISMO. Igor de Lima
Pierre
Chaunu, em A civilização da Europa das
Luzes, discute a cronologia do período iluminista, como os anos de 1680 até
1770. Para o mesmo “na sua curta cronologia, a filosofia das Luzes desfez-se em
pouco menos de um século. A coerência interna e a dinâmica própria das ideias,
no seio de um sistema de pensamento, seja ele a filosofia mecanicista ou a
filosofia das Luzes, tem a história de aceitar e o discurso histórico tem de as
integrar. (...)”. (CHAUNU, 1985, p. 31)
Também
“as luzes, entenda-se as ideias postas em marcha”, formavam a partir das “estruturas
mentais da idade clássica”, as quais “modificam-se lentamente, fazem nascer uma
nova civilização, rica, diversa e múltipla. A política e a religião postas em
causa, a entrada da história na primeira fila do conhecimento. A autonomia é o
primado devorador das ciências. (...)”. (Idem, pp. 40-41)
No que diz respeito ao espaço das Luzes,
Chaunu afirma que “nunca, face ao resto do mundo, a Europa das Luzes,
descentrada em relação à Europa mediterrânica do tempo do Renascimento, nunca
ela foi objetivamente mais vasta. A tomada de consciência desta dilatação do
espaço europeu exprime-se paradoxalmente no cosmopolitismo das Luzes, um
cosmopolitismo restritivo que nunca ultrapassou o âmbito da Europa e que
repousa no esquecimento implícito do resto do mundo. É de algum modo a
antecipação da conquista em profundidade dos continentes pela civilização –
mundo de componente europeia. É, portanto, simultaneamente, a tomada de
consciência desta mutação, o esquecimento das outras culturas e das outras
civilizações para lá das fronteiras alargadas do espaço europeu, a percepção
generosa duma cidade dos homens confundida com a grande Europa”. (Idem, 47-48)
Limitando
o espaço europeu, o autor nota que “a Europa, espaço cultural, é também o
movimento, o progresso. Fora dela tudo é imóvel, fixo e bárbaro. (...) (Idem,
p. 49] Nesse continente, a França destacava-se pela sua ascensão no interior e
a Inglaterra no seu desenvolvimento econômico. Contudo, no século XVIII, os
filhos da aristocracia inglesa viajavam ao continente. “A Europa da viagem
inglesa é, antes de mais nada, francesa: prolonga-se até Veneza, desvia-se
eventualmente até os Países Baixos, Remo e uma facção da Alemanha, ignora a
Espanha. França e Inglaterra confessam assim, através de elementos duma viagem
pedagógica, o seu domínio cultural sobre a Europa iluminada. A viagem inglesa
ao continente contribuiu para afrancesar com certa profundidade, no século XVIII,
a própria língua inglesa. O inglês da rainha, o sotaque de Oxford com as
sílabas marcadas e as entonações continentais, nascem em larga medida do estado
no continente dos filhos da gentry britânica, isso enquanto o inglês americano
da Virgínia e da Nova Inglaterra dos ‘cabeças-redondas’ protegidos pela
distância e pela rude casca provinciana, conserva as entonações anteriores ao
cosmopolitismo europeu e francófono do século XVIII”. (Idem, p. 48)
Ainda
conforme o autor sobre o espaço das luzes, “no espaço-tempo duma Europa
dilatada, as dimensões do homem são, pela primeira vez, realmente
transformadas. A dilatação do homem é o primeiro objetivo que a filosofia das
Luzes assumirá. Esta anima-o a penetrar no domínio reservado da política e da
religião. Esta dilatação do homem guia, do exterior, o pensamento do
Aufklärung; é indissolúvel do Estado, agente activo, agente eficaz desta
conquista do homem sobre si próprio.
Pela
sua vontade de espaço, de poder, o Estado deu um empurrão para a frente às
franjas pioneiras, pela preocupação de melhor se apoderar, de melhor contar o
homem, construiu os dados estatísticos de base. Não fosse isso, não fosse o
Estado e não haveria assimetria social nem, à falta de dados, expansão dos
espírito científico mecanicista, na direção do homem. O Estado (assim como a
ratazana, o rato cinzento da Noruega), deram cabo da peste. (...) A fome
tornou-se mais rara e a guerra humanizou-se”. (Idem, p. 165)
O pensamento
iluminista do século XVIII era ao mesmo tempo fruto do Ancien Regime e crítico
ao mesmo. E no centro da crítica das Luzes estava o debate sobre as ideias
políticas. A partir da morte de Richelieu, da consolidação do governo de
Mazarino e a ascensão de Luis XIV, o rei Sol, os investimentos institucionais,
principalmente nas artes, começaram a formar um fermento cultural erudito
promovido pelo Estado para promovê-lo.
Em outras palavras, a crítica social realizava-se no interior da própria
monarquia.
Nas reflexões
políticas e filosóficas estavam incluídas as ideias de Reforma, o Despotismo
Esclarecido, até as ideias do “estabelecimento da igualdade jurídica e moral’ e
a ‘consciência da liberdade’. Dentre os filósofos, Rousseau representava a
doutrina da bondade natural, que, segundo Cassier significava uma questão
central: ‘Como o mal e a culpa podem ser imputados a natureza humana, se ela
própria, em sua constituição original está livre de todo o mal e de toda a
culpa que desconhece toda perversão radical”. Nesse eixo de pensamento, o
filósofo, de origem suíça e calvinista, chegava a Paris com mais de trinta
anos. Ele ainda criticava a instalação das ostentações e dos deveres sociais,
pois Paris, conforme Cassier, “representava o auge e o momento áureo da cultura
palaciana – e a verdadeira virtude desta cultura consiste na cortesia refinada
com a qual se recebia todo estrangeiro”. (CASSIER, p. 44). Neste sentido, no Discurso sobre a origem da desigualdade,
aparecia essa procura pela exigência simples e pelo fim do peso de “toda a
ostentação do conhecimento”. (Idem, p. 45)
Contudo, Franco
Venturi critica a análise de Cassier sobre o iluminismo ao “colocar o problema
do impacto da tradição republicana no desenvolvimento do iluminismo”. Este
objetivo levava à abordagem da “relação entre utopia e reforma”. (VENTURI, p.
28). Neste contexto, a França voltava-se para a compreensão da “forma antiga à
tradição republicana européia”. (Idem, 45). Resumindo esta preocupação com os
estudos das ideias políticas no centro do poder monárquico, Venturi observa que
“(...) Na
década de 1680, a França, sob Luis XIV, empreendeu uma ação muito mais ágil e
articulada visando desmembrar a velha república. A política francesa interferiu
de cima a baixo na escala social, procurando usar as mais antigas famílias
feudais, os Fiesch, por exemplo, e ao mesmo tempo, a nobreza mais recente, bem
como os burgueses, ou seja, procurando usar aquela camada que à sombra dos
privilégios patrícios continuara a existir e a se desenvolver depois da
cristalização da constituição de Gênova. Luís XIV procurava, em suma, se apoiar
sobre a mesmas forças que estavam na base do seu poder na França, da nobreza –
atraída à corte – a todos que se demonstravam capazes de se inserir no Estado
absolutista por meio de venda de cargos e da política mercantilista de
Coubert.”
“(....) Logo,
em Paris, ao conservadorismo do poder, foi se contrapondo com a Encyclopédie,
uma crítica cada vez mais radical e um início da interpretação iluminista da
inquietação sempre mais extensa e do descontentamento sempre mais difuso”.
(VENTURI, p. 92)
Em 1748,
Montesquieu publicava o Espírito das Leis
com, segundo Venturi, “diagnóstico pessimista” e “ideal republicano”. (VENTURI,
p. 95)
As ideias sobre
o conceito de república suscitava debates e reflexões. Conforme Venturi,
“(...) embora
fora da história ativa e imediata, fora dos conflitos e das batalhas, as ideias
republicanas eram ainda capazes de suscitar uma vontade de independência e de
virtude que os Estados Monárquicos, como explicava Montesquieu, com sua
autoridade, em 1748, não estavam em condições de satisfazer. Em meados do
século, a palavra república ainda tinha um eco profundo no ânimo de muitos, mas
como forma de vida e não como forma política. Havia toda uma investigação a
fazer sobre o significado da palavra república, por volta de 1750, entre livros
e jornais, entre evocações do passado e germes de remanescentes utopias.
Admiração e caricatura se alternavam nas imagens do republicano diligente e
ativo, solene e livre. Existia, certamente, a moral republicana quando as formas estatais que a
haviam acompanhado pareciam antigas e decadentes ruínas. Sobrevive uma amizade
republicana, um sentido republicano do dever, um orgulho republicano mesmo em
um mundo agora mudado, até mesmo no próprio coração do Estado monárquico, na
corte, no mais profundo ânimo de homens poderia parecer completamente integrado
ao mundo do absolutismo”. (VENTURI, p. 140)
Venturi destaca
a ideia de que havia um “fermento republicano” na França durante meados do
século, com as reflexões de Alexandre Daleyere, que se repugnava com o estado
de Paris e encontrava Rousseau. Para Venturi,
“De 1758 a
1793, dos Pensées républicaines à guilhotina, trinta e cinco anos haviam
transcorridos. Valeria a pena seguir Deleyre passo a passo ao longo do seu
caminho solitário. Ver-se-ia como foram acumulando os pensamentos que
transformaram um philosophe num jacobino. Toda a sua insociabilidade e
rebelião, toda sua melancolia ou renúncia, nos conduzia a um canto oculto do
mundo dos enciclopedistas e nos poria em contato com aqueles contrastes e aquelas contradições que estavam
fermentando entre Diderot e Rousseau, entre a França do contrato social e a
Itália da Beccaria, e que terminaram por desaguar na revolução. Deleyere, com
sua sensibilidade exasperada e a sua cultura cosmopolita, é um dos melhores
testemunhos da transformação que poucos outros viveram tão intensamente”.
(VENTURI, p. 159)
O fermento
intelectual na década de 1740 ocorria na França, com a formação da
Encyclopédie, o Esprit des lois de Montesquieu e Pensées Philosophiques de
Diderot, em 1746. E no centro deste movimento intelectual estava Paris, cidade
que estava em um “ambiente já cosmopolita, ainda que imposto de obscuros
professores alemães como Sellius, e de outros tantos ignotos escritores
ingleses como John Mills. Também Diderot e Rousseau, de resto, são todos
desconhecidos no início dos anos quarenta. É uma nova geração, e é também um
ambiente social totalmente diferente de um Fontenelle, de um Montesquieu, de um
Volteire, para somente nomear os homes que dominam então o horizonte
intelectual da França. É um mundo extraordinariamente vivaz de boêmios, de
tradutores, de gente que vive da própria pena e para as próprias ideias. Nos
anos que Voltaire procura se avizinhar da corte e da academia e em que se chega
de maneira surpreendente a estabelecer um modus vivendi até mesmo com o papa
Benedito XIV, em que Montesquieu trata e discute quase como um poder com o
governo francês e com a igreja da política do seu tempo – algumas vezes fazendo
concessões outras não, de acordo com as circunstancias, qual verdadeiro juiz e
grande senhor, distante e genial – esse grupo de jovens era vigiado de perto
pela política e arriscava terminar encarcerado no castelo de Vincennes como
aconteceu com Diderot em 1748, no momento geral aos elementos heterodoxos. Nos
anos em que o país estava finalmente saindo da guerra, esses jovens estavam em
continua guerra com a censura, com as regras corporativas da librarie, até
mesmo com a própria família, e com o ambiente do qual provinham. É o grupo
extraordinariamente livre, interna e externamente. Diderot é animador,
d’Alembert segue-o com relutância. Rousseau interpreta a seu modo as ideias e
os entusiasmos do grupo. Eles recusam toda proteção para a nascente
Encyclopédie, bem como qualquer rígida organização interna. Não eram
dependentes do Estado. Não eram uma academia. Eram um grupo de filósofos
livres”. (VENTURI, pp. 222-223)
Tratando do
movimento destes filósofos, Foucault, em uma série de conferências sobre Kant e
a Ilustração realiza uma arqueologia da racionalidade política, discutindo uma
“geneaologia dos políticos modernos da razão”, interpretada por intermédio de
uma crítica do discurso da existência e reprodução do poder. (Apresentação de
Silvio Maltoni in: FOUCAULT, 1996, pp. 9-15)
Para Foucault,
uma das tarefas centrais da Ilustração era “multiplicar os poderes da razão”.
Os homens desse movimento pensavam sobre o indivíduo e suas liberdades, assim
como na sua espécie de sobrevivência. (Idem, pp. 17-18)
Para Kant era
preciso sobrepor a razão à experiência. E, naquele momento, isto significava a
necessidade de pensar racionalmente e em termos críticos o “desenvolvimento dos
Estados Modernos, e a organização política da sociedade”, vigiando os abusos de
poder da racionalidade política. (Idem, p.18)
O caminho de
estudar os “vínculos entre a racionalização e o poder” eram por meio de:
1.
Tratar
da racionalização da sociedade e da cultura, analisando os “processos em seus
vários domínios – que se arraigam cada um deles em uma experiência fundamental:
loucura, enfermidade, morte, crime, sexualidade, etc;
2.
Ao
estudar a racionalidade é preciso entender que “tipo” de e “princípios” de
racionalidade se apresentam;
3.
A
Ilustração foi uma faze histórica com extrema relevância para a compreensão do
“nosso próprio processo histórico”. Ou seja, estudar o passado Ilustrado,
segundo Foucault é fundamental para se explicar o presente. (Idem, p. 19)
Foucault
pensa em várias temáticas relacionadas à história da modernidade e ilustração,
como a “organização do Estado”, a administração do mesmo, a burocracia e as
técnicas de poder. Sobre este último
ponto, destaca o “poder individualizador”, isto é, a maneira continua e
permanente da maneira dos indivíduos dirigirem a forma política de um poder
centralizado chamado de Estado. (Idem, p. 20)
Discutindo
os Estados Modernos e a organização das cidades, Foucault critica tal fato,
como um “jogo de pastor e rebanho”, ou, como formas “demoníacas”. Em outras
palavras, apesar de entender a formação do estado no sentido moderno
(determinado predominantemente pela racionalidade política), critica tal
relação como sendo um jogo de domínio e poder. Segundo o mesmo, “surpreendente
é que a racionalidade do poder do Estado era reflexiva e perfeitamente
consciente de sua singulariedade. Não estava encerrada em práticas espontâneas
e cegas, e não ascendeu a luz alguma análise retrospectiva. Foi formulada em
particular em dois corpos de doutrina: a razão de Estado e a teoria da
política. Estas duas expressões seguem sentidos estreitos e prerrogativos. Todavia,
durante os quase cento e cinquenta ou duzentos anos que levou a sua formação,
os estados modernos conservaram um sentido muito mais amplo do que hoje”.
(Idem, pp. 44-45)
A
doutrina da razão do Estado tentava definir os princípios e métodos do governo
estatal, como a maneira em que Deus governava o mundo, o padre, a família, ou
um superior, sua comunidade. Dessa forma, a doutrina política definia a
“natureza dos objetos da atividade racional do Estado, definindo a natureza dos
objetos que este perseguia...”(Idem, p. 45)
De
acordo com Foucault, a “razão do Estado” é considerada como uma “arte”, ou
seja, uma “técnica, a qual se submete a determinadas regras. Essas regas não
atraem simplesmente o costumes, ou as tradições, mas também o conhecimento – o
conhecimento racional”. A racionalidade de governo de estado para nós é
considerada arbitrária e violenta, contudo, para os que a vivenciavam fazia
parte da “razão de Estado”. E essa “arte de governar racional” era fruto da
observação da “natureza do que se governa, neste caso, o Estado.” (Idem, p. 47)
O fim desse governo é demarcar sua potência em um “marco extensivo e
competitivo”. (Idem, p.51)
A
preocupação do Estado estava em assistir e controlar a polícia, o exército, a
fazenda e a justiça. Esses temas foram reformados durante os governos monárquicos
de José II e Catarina, a Grande, por intelectuais que pensavam a política e a
intervenção do Estado. (Idem, p. 59)
O
nascimento deste Estado, em termos foucautianos, mantinha um projeto e uma
prática policialesca, em uma maneira e constituição “individualizante e
totalitária. Essa racionalidade política desenvolveu-se e se impulsionou no fio
da história das sociedades ocidentais. Arraigou-se primeiro na ideia de poder
pastoral, logo na razão de Estado. A individualidade e a totalização não pode
prevenir mais do ataque a um ou a outro de seus efeitos, se não de raízes
mesmas da racionalidade política”. (Idem, p. 65)
Refletindo
o que é a ilustração, Foucault discute o
texto de 1784 de Kant, na ideia da uma história universal do ponto de vista
político, um texto sobre o Aufklárung. Em resumo, o presente é considerado um
acontecimento filosófico, que pertence ao filósofo que discorre sobre o mesmo.
Se considera a filosofia como “prática discursiva”, problematizando o presente
discursivo pertencente a uma “comunidade humana” que se remete, por sua vez, a
um “conjunto cultural”. (Idem, pp. 69-70)
Essa
filosofia como problematização da atualidade e como interrogação do
acontecimento filosófico a situava como “um discurso da modernidade e sobre a
modernidade”, segundo Foucault. (Idem, p. 70) Nessa linha de pensamento, a
trajetória das ideias eram provenientes da filosofia de Decartes e Kant, os
fundadores da “filosofia moderna”. Ou seja, a filosofia que pensa em atuar na
sua própria contemporaneidade. A partir daí pensa-se na genealogia da noção de
modernidade, ou seja, do “processo cultural que tomava consciência de si
mesmo”, Aufklárung. (Idem, pp. 72-73)
Conforme
Foucault, Aufklárung foi um momento histórico que se formulava a história geral
do pensamento, relacionando-a com o presente e as “formas de conhecimento, de
saber, de ignorância, de ilusão, nas quais sabe reconhecer sua própria situação
histórica”. A questão da “Auflárung” é manifestar-se sobre a maneira de
filosofar ao longo dos séculos. “Uma das grandes funções da filosofia chamada
de moderna (cujo conhecimento pode situar-se em meados do século XVIII) é
interrogar-se sobre sua própria atualidade”. (Idem, p. 72)
Esse
movimento inaugurava a modernidade europeia, para Foucault, que o entendia como
um “processo permanente”, manifestado na “história da razão e no
desenvolvimento e na instauração de formas de racionalidade e técnica,
autonomia e autoridade de saber”, sendo “uma questão filosófica inscrita desde
o século XVIII no nosso pensamento”. (Idem, p. 80) Esta filosofia inaugura a
modernidade.
Definindo
modernidade, Foucault afirma que é “uma vontade de glorificar o presente,
contudo, esta heroificação é irônica”. A ironia está em que o homem moderno
busca a compreender e elaborar-se a si mesmo. Desse modo, o ethos filosófico da
modernidade é criticar-se continuamente a si mesmo de maneira reflexiva,
histórica e crítica. Essa crítica, portanto, é a profissão de fé da ilustração.
(Idem, pp. 85-11)
Lothar
Kreimendal, em A filosofia do século
XVIII como a filosofia do Iluminismo, afirma que “o século XVIII é
considerado o século do Iluminismo”, marcando este “período, que engloba a
secularização da política, na cultura, na literatura e na religião, ou seja em todas
as manifestações da atividade humana”. (KREIMENDAHL, p. 7) Para o mesmo, “o
conceito de Iluminismo pode não ser tomado no sentido histórico como
designativo de uma determinada época, como também se adapta como conceito
pragmático para a caracterização de certa postura espiritual que transparece no
dito horaciano Sapere aude e que não foi utilizada pela primeira vez por Kant
em seu conhecido ensaio iluminista de 1784, quando o elegeu como lema para o
Iluminismo e para o qual talhou a seguinte famosa tradução. Tem coragem de
fazer uso da tua própria inteligência!”. (Idem, pp. 8-9).
De
acordo com Kreimendahl o Iluminismo abrangia a cultura europeia a partir de
1680. Nesse momento inicial, encontra-se o Tratactus Theologico-Politicus de
1670 de Spinoza. A partir dai, o movimento abrange um maior número de cidadãos,
abrangendo também a classe média, como exemplo maior a Encyclopédie, publicada
por Diderot e d’Alembert em 1751. Neste último momento, já se encontra
desgastado com o aparecimento do “Romantismo inicial”. (Idem, pp. 10-11)
Na
Inglaterra, a partir da Revolução Gloriosa de 1688, a “democracia
parlamentarista” e a tolerância religiosa marcavam o avanço dos livres
pensamentos iluministas. Voltaire, em exílio londrino (1726-1729) declarava sua
admiração pelos ingleses. Os Principia de Newton e Essay de John Locke marcaram
o movimento. Segundo Kreimendahl,
“(...)
Fundamentado em seu princípio básico e empírico, Locke sondava as ideias do
intelecto e tentava explicar suas origens por meio da experiência. De acordo
com seus contemporâneos, ele teve sucesso a ponto de transformá-lo na
autoridade máxima da filosofia do seu tempo”. (Idem, p. 14)
Na
França, de acordo com o mesmo, florescia a cultura aristocrática já em 1682 com
Pierre Bayle, combatente da “superstição” e o “preconceito”. Para Robert
Darton, entretanto, o Iluminismo restringia-se a Paris no início do século
XVIII. (Idem, p. 16) Contrapondo-se a isso, Kreimendahl declara que
“Diferentemente
da linha empírica da ciência (natural) do Iluminismo britânico, o francês tem
orientação sociocrítica e dirige-se contra a Igreja, contra instituições
repressivas e contra a burguesia. No terreno metafísico, representa um
materialismo que acaba evoluindo religiosa e filosoficamente para o ateísmo”.
(Idem, pp. 17-18)
Na
Alemanha, de acordo com o mesmo autor, o Iluminismo atingia seu ápice com as
obras de Kant e Mendelssohn, publicadas no Periódico Mensal Berlinense, e,
podia ser imitado por quatro gerações, abrangendo os anos de 1680 à 1790.
(Idem, pp. 22-23)
Sintetizando
a definição do movimento iluminista, Kreimenahl afirma que
“A
enorme expansão do pensamento iluminista estava ligada a uma série de
pressupostos e condições. Considerando a atualidade dos temas propostos, a
comunicação entre os simpatizantes do Iluminismo ocorria inicialmente apenas
por via oral. Círculos privados, os salões e os cafés eram os lugares em que as
conversas conspiradoras podiam ser mantidas. No início, especialmente na
França, onde havia forte censura em oposição ao que ocorria na Inglaterra, a
documentação escrita circulava apenas de mão em mão. Obras impressas eram
executadas, quando muito, em impressoras clandestinas de lugares fictícios na
Holanda liberal. Isso explica a relativamente elevada incidência de obras
francesas na literatura clandestina. As obras tinham de ser adaptadas ao
público-alvo, qual seja, os cidadãos cultos. Gradativamente o latim era
substituído pela língua nacional, dando-se preferência às formas mais
agradáveis de leitura, como os ensaios, dialógicos ou relatos de viagens, sobre
volumosos tratados. O progresso da técnica da imprensa possibilitava maior
rapidez e, consequentemente, uma reação mais rápida dos iluministas a
acontecimentos atuais, além de baratear os custos, o que permitia atingir
círculos mais amplos. O mercado livreiro internacionalizava-se, e a crescente
tendência ao jonarlismo contribuiu para a eficácia do movimento iluminista”.
(Idem, p. 27)
Como
característica do Iluminismo, Kreimendahl destaca os combates ao “preconceito”
e à “superstição”. No primeiro caso, para superá-lo era necessário recorrer ao
conhecimento histórico, como no caso de Voltaire e Hume. (Idem, p. 30)
Outro
valor marcante do Iluminismo é a liberdade de pensamento e a profusão de
debates, o que fazia com que houvessem muitas diferenças entre os seus
pensadores. Em termos de região, de maneira geral o “Iluminismo alemão é mais
orientado na metafísica, em oposição à orientação científica e empírica inglesa
e a sócio-crítica e materialista francesa”. (Idem, p. 33)
Não
obstante, o século XVIII também possuiu opositores ao movimento, na França,
Rousseau com Nouvelle Héloise (1761) e o movimento do Sturm und Drang
(tempestade e ânsia) na Alemanha, foram contrários ao Iluminismo. (Idem, pp.
36-37)
Todorov,
em O espírito das Luzes, defende a ideia de que nesta época o debate era muito
mais valorizado do que o consenso, havendo um projeto de emancipação e
autonomia intelectual. Segundo o mesmo, no “mundo desencantado das luzes” havia
uma crítica maior com as relações entre religião e Estado. A religião
tornava-se uma decisão individual. O autor também valoriza a liberdade do
conhecimento da ciência, da tolerância e o “combate pela liberdade de
consciência” (TODOROV, 2008, p. 17)
Todorov
entende que a liberdade humana e na capacidade de escolha encontravam em
Rousseau seu maior ícone. Havia, assim, uma revolução no pensamento iluminista,
na qual a crítica tornava-se o principal mote. “A máxima de pensar por si mesmo
é as Luzes”, afirma o autor. (Idem, pp. 49-51) Discutindo o papel da autonomia
iluminista, afirma que “paralelamente à libertação do povo, o indivíduo adquire
também sua autonomia. Ele se engaja no conhecimento do mundo sem se inclinar
diante das autoridades precedentes, escolhe livremente a religião, tem o
direito de exprimir seu pensamento no espaço público e organizar sua vida
privada como bem entende. Não é preciso crer que, um papel privilegiado com
relação às tradições, os pensadores das Luzes prolonguem essa exigência com uma
hipótese sobre a natureza dos homens: eles sabem muito bem que nossa espécie
não é racional. (....)”. (Idem, p. 52)
Essa
autonomia, de acordo com Todorov, “é desejável, mas autonomia não significa
auto-suficiência. Os homens nascem, vivem e morrem em sociedade; sem ela, eles
não seriam humanos. É o olhar sobre a criança que está na origem da
consciência, é o comando dos outros que o desperta para a linguagem. O próprio
sentimento de existir, ao qual ninguém pode subtrair-se, porém da interação com
os outros. Todo ser humano é acometido de uma insuficiência congênita, de uma
incompletude, à qual busca preencher afeiçoando-se a seres que o cercam e
solicitando o afeto deles. É ainda Rousseau que exprimiu mais fortemente essa
necessidade. Seu testemunho é particularmente precioso, pois, enquanto indivíduo,
fica constrangido entre os outros e prefere fugir deles. Mas a solidão é ainda
uma forma de vida comum que não é nem
possível, nem desejável abandonar”. (Idem, p. 53)
Bibliografia
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São Paulo: Unesp, 1999.
CRAMPE-CASNABERT,
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PERROT, Michelle. História das Mulheres:
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CAHUNU,
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Luzes. Lisboa: Editorial Estampa, 1985.
DULONG,
Claude. Da conversação à criação. In: DUBY, Georges e PERROT, Michelle. História das Mulheres: do Renascimento à
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KREIMENDAHL,
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In: KREIMENDAHL, Lothar (Org.). Filósofos
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SONNET,
Marline. Uma filha para educar. In: DUBY, Georges e PERROT, Michelle. História das Mulheres: do Renascimento à
idade Moderna. Porto: Afrontamento, 1991, Vol.3, pp. 141-179.
TODOROV,
Tzvetan. O espírito das Luzes. São
Paulo: Ed. Barcelona, 2008.
VENTURI,
Franco. Utopia e Reforma. Bauru, SP,
2003.
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