sábado, 16 de junho de 2012

RESENHA: DEAECTO, Marisa Midori. O império dos livros. São Paulo: Edusp/Fapesp, 2011. IGOR DE LIMA


Professora do curso de editoração, da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, Marisa Midori Deaecto nos brinda com uma bela obra publicada pela Edusp, em 2011.  O livro, fruto de seu doutoramento no Programa de História Econômica da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, foi preparado com um capricho pouco comum nesses tempos de leitura rápida no ciber espaço, em que o contato com a obra de arte está cada vez mais rara e preciosa. O cuidado com a produção da obra, vai desde a capa, com o bom gosto da cor e do modelo, o papel “Chamois Book”,  as 448 páginas com ilustrações de época, contando com tabelas, imagens (com retratos, charges, paisagens), gráficos, mapas e o marcador de página (infelizmente pouco comum nos dias de hoje). Desse modo, todo o conjunto da obra faz o leitor entrar no espírito da época do Oitocentos.
Com rica pesquisa em acervos documentais na cidade de São Paulo e na França, a autora reconstitui a economia do livro em um contexto no qual a população leitora era restrita e que fazia desse objeto ainda mais raro, precioso e distante da leitura de massa.
Logo de início conta com o prefácio de Jean-Yves Mollier que fornece um petisco da trajetória intelectual da autora, do seu conhecimento da historiografia internacional sobre o tema e o assunto da constituição da biblioteca pública, os caminhos e descaminhos das bibliotecas particulares.
Dividido em quatro partes, a autora retrata de maneira simples e refinada, sempre realizando questões importantes para a problematização dos dados da pesquisa levantada. Logo, na introdução questiona-se: “...até que ponto o livro atua como força transformadora em nossa sociedade? Ele já teve um dia esse papel?”. (p.23)
Para responder essas perguntas, Marisa divide a obra em quatro capítulos. No primeiro, trata das mudanças urbanas econômicas e sociais da cidade, como o crescimento populacional e o aumento do consumo e de instituições como a primeira Biblioteca Pública de São Paulo, em 1824, a Faculdade de Direito, em 1827.
Nota-se, que no primeiro momento, os livros do início do século XIX, em sua maioria, tratavam de temas religiosos. Apesar da maioria dos temas de seus livros não fossem dessa temática, o acervo formador da Biblioteca Pública era da Biblioteca do Bispo D. Mateus de Abreu Pereira (1741-1824), com um total de 1.059 volumes. Dentre estes, destacam-se livros de Racine, Molière, Voltaire, Montesquieu, além dos autores antigos, Horácio, Virgílio e Homero. Dos ingleses, o padre tinha um exemplar de História da Inglaterra de Hume. No que diz respeito às obras de Coimbra e religiosas, não faziam parte da maiorias obras do acervo. Outra Biblioteca fundadora da Biblioteca Pública, era a dos Frades Franciscanos, com 3.196 títulos. Diferentemente, da primeira, na segunda instituição, os temas religiosos predominavam.
Os intelectuais foram o objeto  do segundo capítulo. É com certa melancolia que a autora constata a precária vida intelectual da cidade de São Paulo. Dessa maneira, conforme Midori
“No final, nem ‘república de sábios’, nem uma universidade. A instalação da Academia de Direito vinha compensar o insucesso de projetos promissores, como os apresentados pelos intelectuais paulistas no momento em que precederam a Independência e, depois, junto à Assembleia Constituinte. Tais são, como afirmamos acima, as dissensões entre os projetos intelectuais e os interesses das elites políticas. Basta lembrar que o projeto de uma universidade só se tornou possível um século mais tarde, novamente como reação paulista à nova composição dominante na política nacional. Nesse sentido, a Academia deve ser interpretada como a última – e talvez a única, em termos científicos – realização possível da geração de políticos e letrados que expirou nos anos de 1830”. (pp. 116-117).

Nessa vida acadêmica precária, a falta de livros era uma constante, assim como poucas pessoas possuíam fortunas com esses artefatos.  Assim, Midori também aborda o consumo de livros por meio dos inventários post mortem, que aliás eram produzidos na região desde o século XVI. Também, conforme análise dessa fonte, os livros eram presentes na vila já em meados do século XVII.
Como exemplo de uma fortuna livresca, estava no inventário post mortem de Genebra de Barros Leite de 1838, o qual contava com 326 livros. E, na análise dessas fortunas, a autora aponta que
“(...) Em São Paulo (...) a presença de livros, assim como de toda sorte de objetos que revelam certo refinamento no gosto dos inventariados, estava condicionada mais ao nível cultural do que ao montante bruto de suas fortunas – esta relação, no caso analisado, é totalmente aleatória. (...)”. (p. 147).

No terceiro, discute com maestria o espaço as transformações do espaço urbano e o circuito dos livros. Nesse momento, a autora se utiliza da leitura cartográfica e realiza uma feliz conexão entre a História do Livro e a Cartografia. Nesse ponto, observa:
“as cidades brasileiras que tiveram expressão no mercado literário do século XIX foram justamente aquelas que exerceram alguma função no sistema internacional de comércio. De tal modo que uma cartografia do circuito do livro, dos grandes circuitos, consiste, em uma cartografia que integre o livro às grandes redes comerciais da época. Tudo isso com os devidos ajustes à natureza ambivalente do objeto. Afinal, os fatores econômicos que nos permitem identificar as redes de comércio que cruzam o Atlântico – sendo o livro, certamente, mercadoria inexpressiva do ponto de vista do capital que ele agrega – somam-se, logicamente, os fatores culturais e, a estes, outras particularidades que definem circuitos diferenciados de produção – intelectual e industrial – e difusão livresca. (...)”. (p.186)
           
Ainda nesse capítulo, Midori  reconstitui  o circuito dos livros integrados ao cotidiano da população da urbes paulistana que se transformava e modernizava principalmente a partir da segunda metade do Oitocentos. Exemplo disso, é o estabelecimento de uma Sociedade Germia, fundada em 1868, bem como a presença do transporte ferroviário, do bonde, dos primeiros lampiões a gás, do crescimento populacional da região. E, entre 1870 e 1900 “multiplicaram-se as instituições de leitura na cidade”. (p.229)
Nesse processo, foram fundados o Instituto Histórico e Geográfico (1894), com um acervo de apenas vinte títulos, a Escola Politécnica de São Paulo (1893) e a Faculdade de Medicina (1913). Contudo, a precariedade das condições livrescas nas  bibliotecas era uma constante, obtendo pouco apoio das elites, pautadas pela “tradição e conservadorismo”. (p.246).
 Na tradição bacharelesca da cidade, a Biblioteca da Faculdade de Direito ganhava luz elétrica e aumentava consideravelmente seu acervo livresco . Os leitores também recebiam um espaço maior para os estudos, permanecendo mais tempo na instituição.
No último, sobre a circulação e consumo do livro, aborda dentre outros as aspectos, o papel do empreendedor Antole Louis Garraux (1833-1904), que importava artigos de luxo da França. Dentre os artefatos, destacam-se os livros. Importantes obras eram trazidas para a cidade. No catálogo de 1872, os domínios de Literatura e Direito eram numericamente superiores.  O primeiro assunto era mais consumido pelos bacharéis do curso do Largo São Francisco. Os livros de  Literatura eram  dominantes. Provavelmente, consumidos pelos mesmos, mas também as moças das famílias importantes da cidade. Sobre isso, a autora ressalta que
“o modelo tão propriamente burguês de organização familiar – no qual as moças se reuniam na sua placidez cotidiana para a leitura e bordados, todas tuteladas pela governanta ou pela irmã mais velha – era um convite à aquisição de livros ilustrados, de romances e de revistas de costumes, não raro de conteúdo moral. Alguns destes  mandados vir da Europa, mas que poderiam ser encomendados junto aos livreiros da Corte e de São Paulo. Tais hábitos se refletem nos catálogos livreiros, que anunciam seções dedicadas à leitura feminina ou, de forma mais ampla à juventude e às famílias” (p. 347).

Na cidade, o consumo de livros parece ter crescido nas últimas décadas do Oitocentos, com o aumento das tipografias, juntamente com a comercialização de artigos de luxo. Dessa maneira, a autora entrecruza as transformações urbanas com as atividades livrescas, encontrando no Almanak Laemert (1903-1904) 19 casas do ramo. (p. 375)
Pode-se pensar, a partir das suas pesquisas, em outros temas e livros a serem estudados: as bibliotecas religiosas, o consumo de livros no período colonial e o posterior no século XX. Nesse último período, a autora, embasada em Edgard Carone, aponta para a necessidade de estudar o público leitor de esquerda. Essa pesquisa indicada ajudaria ainda mais a responder a questão formulada no início da obra e aqui se repetindo: “...até que ponto o livro atua como força transformadora em nossa sociedade? Ele já teve um dia esse papel?”. (p.23) Provavelmente, a resposta seria diferente para o contexto do século XX.
Em suma, o livro da Marisa nos fornece uma multidão de obras de artes que estão prontas para serem apresentadas. E esse é, na forma e no conteúdo, uma preciosa  obra de arte.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

LIMA, IGOR. HOMENAGEM. IN: SAMARA,ENI DE MESQUITA (ORG.). MULHERES NA AMÉRICA E NO MUNDO IBÉRICO. SÃO PAULO: HUMANITAS, 2012, PP. 317-318.


A professora Eni acompanhou de perto toda a construção da presente obra Mulheres na América e no Mundo Ibérico, publicado pela Humanitas (FFLCH/USP), nesse ano de 2012.
Nos momentos finais, ainda no hospital, escutou contente a notícia sobre a publicação do livro, com a seguinte mensagem: “A cor da capa é a mesma que a cor das unhas das mãos da Senhora”. Aliás, as unhas estavam impecavelmente bem arrumadas, característica presente em toda sua vida, vestir-se bem e se apresentar. Em momento nenhum lastimou o avanço da doença. Apenas sorriu e pediu para contar as novidades. “Conta mais”, disse enfaticamente.
Infelizmente, não foi possível informar os novos acontecimentos, pois ela faleceu uma semana depois de escutar sobre o encaminhamento do livro para a publicação.
O livro faz parte de uma pesquisa de longa data sobre a análise do universo feminino e das relações de gênero. Todos os artigos que o compõe são de alunos e pesquisadores que tiveram em algum momento contato e convívio com o charme e ânimo da professora.
O livro conta com um artigo do professor A.J.R. Russel-Wood que, também, não se encontra mais entre nós. Samara e Russel-Wood foram discípulos de Charles R. Boxer, pesquisaram sobre a mulher na Colônia e constituíram uma tradição de interlocução entre historiadoras e historiadores dos Estados Unidos da América e do Brasil.
Pretende-se com essa publicação consagrar uma primeira homenagem com carinho à professora Eni de Mesquita Samara pela convivência durante esses longos anos de permanência no Departamento de História, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas e na Universidade de São Paulo.
O livro é também uma lembrança dela que deixa muitas saudades.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

O FIO E A TRAMA: TRABALHOS E NEGÓCIOS FEMININOS NA VILA DE SÃO PAULO (1554-1640). IGOR RENATO MACHADO DE LIMA


Na vila de São Paulo, a atuação das mulheres senhoriais foi marcada pelo trabalho nas casas, nos sítios, nas lavouras e nos comércios, entre os anos de 1554 até 1640. Comandando os índios e realizando comércio, as mulheres senhoriais paulistas auxiliavam os cônjuges e os familiares na acumulação de patrimônio e na montagem da economia escravista e de mercantilização incipiente.
A lida nas lavouras de produtos alimentícios caracterizava-se marcadamente pela gerência da escravaria. Mas caso houvesse pouca quantidade de mão-de-obra indígena as próprias mulheres senhoriais eram obrigadas a participar das atividades de plantio, da colheita e dos demais serviços que tinham por ventura de realizar.
As estruturas do cotidiano da vila de São Paulo foram marcadas pela saída freqüente da população masculina, pelo espaço de atuação feminina no universo do trabalho e dos negócios, pela presença constante das “nações indígenas” de diferentes etnias e pelas relações estamentais, senhoriais e escravistas.
No século XVI, no território de Piratininga, ocorreram constantes guerras de conquista das populações indígenas e a solidificação do domínio senhorial. Ainda neste período, o senhor e “pater familis” passava a constituir a autoridade moral sobre os filhos e as esposas.
Nas Câmaras, havia senhores que passavam a controlar a governança e comandavam o dia-a-dia dos moradores com o intuito de estabelecer a ordem na vila. Reprimindo os indígenas, estabelecendo os preços dos produtos, recrutando os grupos militares, controlavam as relações familiares e as expedições para o sertão.
No decorrer do século XVII, as famílias senhoriais já constituídas avançaram pela Capitania de São Vicente, explorando novas terras e formando uma sociedade hierárquica e estamental, de valores cristãos. Nesse período, a vila de São Paulo, nas franjas do Antigo Sistema Colonial, tornou-se um centro importante de povoamento colonizador na região de fronteira da América Portuguesa.
Na conjuntura econômica da vila de São Paulo dos anos de 1554 e 1640, as mulheres senhoriais paulistas auxiliavam na formação da economia pecuarista, no cuidado com a alimentação das criações de animais e com os cercamentos do gado vacum.
A utilização da mão-de-obra cativa e a constituição da incipiente mercantilização faziam com que as mulheres conseguissem acumular pecúlios e participar dos negócios. O comércio paulista realizava-se, assim, graças à rede de créditos e débitos que se estendiam até as regiões litorâneas de Santos, Rio de Janeiro e, consequentemente, da zona econômica do Atlântico Sul.
Porém, na sociedade paulista, os valores extra-econômicos também eram significativos, como os ideais nobiliárquicos de fidalguia e nobreza, além do desejo por objetos de luxo e por símbolos de prestigio social. Os artefatos luxuosos correspondiam a um consumo ainda muito incipiente. Além disso, a vida material da camada senhorial ainda era bem simples. Um vestido, um espelho, uma porcelana, ou qualquer outro artefato importado significava uma capacidade de gerar riqueza, a qual se convertia em artigo de luxo.
Ainda nesse contexto, as mulheres senhoriais paulistas formavam redes de solidariedade, doando esmolas e participando da vida religiosa. Fazia parte das atividades sociais femininas, tais como: os ensinamentos das rezas, o cuidado com a prole e a transmissão dos valores cristãos aos filhos.
Era também muito importante a capacidade de negociação com as autoridades do Juizado de Órfãos. Negociando com os juízes, as viúvas poderiam conseguir a curadoria dos filhos e a administração do patrimônio. Não foram poucas as mulheres que na viuvez adquiriam certo status e poder, conseguindo desvencilhar-se das autoridades locais e do domínio patriarcal. No entanto, para isso era necessário assumir papéis considerados importantes para o gênero masculino.
Apesar da “longa duração” da desigualdade entre os gêneros na colônia portuguesa, as senhoras de escravos adquiriam um espaço de participação na sociedade estamental e escravista, conseguindo ter domínios sobre as escravarias e alguns familiares que viviam sob o seu entorno.
Na indústria doméstica, toda a preparação da tecelagem ocorria sob a liderança das senhoras. Solteiras, casadas ou viúvas, mantinham atividades cotidianas de administração e comando dos gentios.
No processo da indústria caseira do algodão, as cunhãs tecedeiras, auxiliadas pelos curumins, eram responsáveis por inúmeras tarefas. Plantavam, colhiam, desencaroçavam o algodão e mantinham outros afazeres no interior doméstico, como cuidar da prole e do domicílio senhorial. Subalternas às senhoras, a população feminina indígena mantinha um status inferiorizado pelo predomínio dos valores estamentais, senhoriais, escravistas e patriarcais.
No comando das escravas tecedeiras indígenas, as mulheres senhoriais, esposas, filhas ou viúvas dos vassalos do Império ultramarino colonial, de certa forma, reiteravam as condições senhoriais, escravistas e a mercantilização incipiente, formando um poder intermediário entre os senhores e a população cativa predominantemente indígena, a qual raramente era comercializada. Neste sentido, as senhoras distinguiam-se na hierarquia social dos homens senhoriais, havendo assim uma forte desigualdade de poder entre os gêneros dos estamentos senhoriais.
 Enfim, a atuação feminina senhorial possuía um papel contraditório na vila de São Paulo durante a conjuntura de 1554 e 1640. Por um lado, estavam subjugadas ao poder masculino dos senhores patriarcais, sendo excluídas muitas vezes das decisões da governança da terra e dos comandos de saídas para o povoamento, realizadas pelos esposos, filhos, maridos e pais. De forma que esses homens senhoriais, habitualmente, voltavam-se para os problemas administrativos e para as atividades guerreiras de expedições do sertão e de mercancia à longa distância. Por outro, as mulheres senhoriais atuavam com autonomia nas atividades de trabalho, negociavam com a jurisprudência da terra, realizavam doações de esmolas aos necessitados e acumulavam patrimônio para si e para os familiares por meio dos negócios mercantis incipientes e do comando das escravarias. Com a saída da população masculina para as regiões do Guairá-Tape, essas senhoras estavam na situação de controlar o patrimônio familiar como as casas, os sítios e as lavouras. Por isso, passavam a negociar e entrar em atritos com as autoridades do poder local e a comercializar os frutos do trabalho escravo.
Em suma, entre o domínio dos senhores e a exploração das populações indígenas escravizadas, as mulheres senhoriais paulistas, proprietárias de escravarias de variados tamanhos, formavam um poder intermediário, pois diferentemente do gênero masculino, voltaram-se para os universos domésticos e familiares, cuidando dos filhos, gerando excedentes econômicos relevantes para os herdeiros e auxiliando suas famílias a adquirir escassos artefatos de luxo.

CASAS E SÍTIOS DAS SENHORAS PAULISTAS. IGOR RENATO MACHADO DE LIMA


“A divisão de trabalho doméstico reflete a definição social da diferença entre esposo e esposa: as tarefas realizadas eram complementares. A diferenciação do papel do trabalho era baseada, em parte, na noção de que a mulher tinha que manter as crianças e administrar o domicílio”.[1]

Louise Tilly and Joan W. Scott


Nos domicílios paulistas, as mulheres senhoriais trabalhavam na manutenção e nos cuidados com as crianças por meio do comando das escravarias indígenas. A partir disto, assumiam papéis importantes no seio familiar. As casas, locais de moradia e de produção das famílias senhoriais, traduziam as diversas ambigüidades da vida material dos moradores da vila de São Paulo. As condições de “conforto” e “consumo” da população estavam relacionadas ao luxo, à miséria e a escassez de bens dos estamentos senhoriais.[2]
As transformações do patrimônio e as contradições da infra-economia foram perceptíveis por Alcântara Machado, quando escreveu que “às míseras choupanas que se compõem inicialmente o povoado vão sucedendo as construções de taipa, com exuberantes beirais e rótulas nas portas e janelas, à moda mourisca”. A descrição das casas miseráveis continuava quando trata dos materiais de construção. “As cobertas primitivas de palha aguariana ou sapé cedem lugar aos telhados. Do empenho com que os paulistanos procuraram fomentar o fabrico de telhas dão testemunho abundantes as vereações da época”.[3]
Poucos eram os sobrados existentes na vila. Um caso isolado era do inventário de Mariana de Chaves, realizado em 1617. Outra característica marcante desse fogo era o valor de 10$000. As casas de substancial qualidade eram de “Catarina de Medeiros que ficavam na rua que ia para São Bento, e dez anos depois, as de Maria Ribeiro, na rua de Santo Antônio. Só atinge a quantia excepcional de 1:000$000: a de Lourenço Sanches que declara ter dado à filha em dote de casamento”. [4]
Entretanto, o luxo da vida material paulista é relativizado por toda a sua obra. Era, segundo Machado, “na baixela e nas alfaias de cama e mesa que a gente potentada faz timbre em ostental opulência”. [5] Em um outro momento o autor escreveu que “não nos deixemos iludir pelos indícios, que apontamos, da educação do gosto e dos desejos de ostentação. Apesar disto, é tão parco o adereço ou guarnimento da casa fidalga na era seiscentista, que a descrição de tudo cabe à vontade em meia dúzia de linhas”. Ao final da análise da vida material, expõe as nuanças da infra-estrutura paulista: “haverá coisa mais relativa que o luxo?”[6]
Desenvolvendo essa questão, Braudel, ao se referir sobre as condições de vida da população do mundo pré-indústrial, afirmou que
“ a comida de todos, a casa de todos, a roupa de todos – e as soluções minoritárias para benefício de privilegiados, sob o signo do luxo. Atribuir um lugar à média e à exceção é adotar uma dialética necessária, evidentemente incômoda. É forçar as idas e vindas, preto no banco, branco no preto e assim por diante, porque a classificação nunca é perfeita: o luxo, por natureza inconstante, fugidio, múltiplo, contraditório, não se pode identificar de uma vez por todas”[7]

            Contudo, no interior das casas paulistas figuravam-se os móveis e utensílios de metais, que para muitos eram considerados objetos de extremo valor. Dentre os mais comuns, destacavam-se as redes de dormir – fabricadas com o algodão da terra - , as ferramentas de uso cotidiano, como as facas, as caixas de madeira, os caldeirões de latão, os teares e os fusos.
            Os utensílios domésticos abundavam no patrimônio da senhora Maria de Morais. Nas partilhas do inventário do esposo, os bens da casa que lhe cabiam eram a bacia ($400), as peroleiras vazias (2$500), o frasco de vidro ($240). Dos artefatos da mesa (1$000), tinham 8 colheres de prata (1$280), os pratos, as galhetas e o saleiro (1$700). Também contava com 6 cadeiras (3$840) e o castiçal ($200).
            A senhora ainda ficava com 3 côvados de perpetuana novo (4$160), 2 varas de pano de linho ($840), 5 varas de pano de algodão ($800), 3 côvados de telinha (2$080), 8 varas e maia de griceu (6$800). A viúva ainda contava para negociar com o estoque de 700 mãos de milho (7$000), 4 arrobas de algodão (2$000), 6 alqueires de sal (3$000) e 17 arrobas de carne (8$000).[8]
            Dessa forma, as casas poderiam ser ricas ou pobres. Além disso, segundo Leila Mezan Algranti, não foram restritas “às áreas edificadas, ou à construção principal. Quintais, jardins, pomares e hortas, além de anexos, estes cobertos de telhas ou palha, eram geralmente circundados por muros baixos que delimitavam o espaço doméstico. (...)”.[9] No entanto, a autora também notou que
“...no que toca ao conforto doméstico e à decoração dos interiores, essas diferenças devem ser matizadas, uma vez que a precariedade do mobiliário e dos ambientes era comum  toda a colônia, salvo algumas exceções, como as casas de certos capitães-mores e de alguns ricos fazendeiros. No geral, a modéstia do mobiliário fica evidente nos depoimentos colhidos, revelando a inexistência de espaços aconchegantes para o convívio familiar. Poucas cadeiras, uma ou duas mesas com seus bancos, além de algumas caixas e baús é o que encontra na maior parte das vezes, por exemplo nos inventários paulistas”[10]
           
Dos inúmeros objetos das moradias pertencentes aos senhores, de acordo com Algranti, existiam também as “Porcelanas das Índias”, que eram artefatos trazidos e utilizados pelos comerciantes mais abonados da colônia.[11]
            A tamboleira também era outro importante utensílio. Segundo Belmonte, era “um disco de prata, revelado no centro e nas bordas, como fundo de garrafa, com que se avalia a grossura do vinho”.[12] Ainda conforme o mesmo,
“enquanto, o estanho constitui o metal por excelência, nesse século, dado o seu baixo preço e alta durabilidade – tigelas, pratos, castiçais, candieiros, colheres, jarros – encontram-se, aqui e ali, a prata e a loca, indicativas de que seus possuidores são pessoas de melhor tratamento. Púcaros, pratos, colheres, salvas, tamboleiras, castiçais, tigelas, nauetas, garfo, tudo de prata, são contradiços nas residências mais abastadas onde às vezes, aparecem as primeiras peças de louça da Índia e do Reino”.[13]
           
Próximos às casas, os sítios tomavam parte significativa dos bens arrolados nos inventários das famílias senhoriais.[14] Ana de Moraes, em meados da década de 1610, tinha o sítio, com suas casas e seu quintal serrado (16$000) e mais uns fogos de taipa de mão (4$000). Tinha também lavouras em 18 alqueires de feijões avaliados em 160 réis, remontando tudo a 2$880. Ainda dividia duas roças de 14$000 com Maria de Moraes. O excedente era constituído por 200 mãos de milho (2$000), 27 arretéis de lã ($540), meia arroba de carne de porco (1$120) e meia arroba de cera ($640). Por não ter em plantação de algodão e tear, o casal Ana de Moraes e Francisco Velho deviam a Luiz Fernandes Bueno 6 varas de algodão ($960).[15]
Em 1623, Izabel Dias, viúva de Balthazar Nunes, ficava com o sítio de taipa de mão de três lanços com seus corredores cobertos de palha, árvores de espinho, figueira e parreira (6$000).[16]
O sítio de Madalena Hosquor era “cercado para dentro com todas as plantas que assim de rama como parreiras de algodão e feijão e árvores de espinho e as casas de dois lanços cobertas de telha de taipa de pilão, sobradadas com suas varandas e corredor”. Valia ao todo 40$000, sendo uma fortuna para o período.[17]
            Como curadora dos filhos, devido à vontade do falecido marido, Madalena decidira partir para a Bahia. Mudava-se para a cidade de Salvador e por ser senhora abonada mandava para “fora da terra e por mar” a sua fortuna. Com a sua partida, o casal Jorge e Izabel Rodrigues viram-se obrigados a dar fiança dos bens da viúva ao capitão Antonio Pedroso, que ficara responsável por “entregar toda a fazenda que ficara na vila”.[18]
No arrolamento dos inventários, nota-se a presença de enxadas, coifas, machados, foices, goivas, bigornas, peroleiras, botijas, ralos e prensas. Esses artefatos tinham utilidade para os afazeres nas casas, nos sítios e nas lavouras distantes dos fogos.
            No final do Quinhentos, Izabel Felix, senhora de Miguel Sanches e com dois filhos, tinham os seus 7 cativos. Eram proprietários de um sítio e de uma casa de apenas 4$800.[19] Na passagem para o século seguinte, a viúva e sitiante Mercia Rodrigues contava com apenas a casa da vila, o pedaço de chão (6$000) com o sítio e o arrozal de 2$000, onde trabalhavam 4 cativos. No entanto, o seu monte-menor valia 126$620, o que não era pouco para os padrões de riqueza de Piratininga.[20]
            Violante Cardoso, esposa de Pero Madeira, deixava os filhos ainda bem pequenos, Francisca de 11 anos, Clara de 5, Maria de 4, Gaspar de 8 ou 9, Jorge de 7. A família possuía 37 escravos gentios, que trabalhavam em uma quantidade sigificativa de propriedades. As benfeitorias eram constituídas pelo sítio da banda de além, chamado Eypoamoçum, com três lanços de taipa de pilão, cobertos de telha com o seu corredor e quintal cercado, com todas as três árvores que tem de fruto, valendo 50$000. Uma lavoura que estava em Taquera (6$000), 2 pedaços de mantimentos e 500 mãos de milho (5$000) que estavam no sítio de Hicuabossum (10$000) eram parte do patrimônio familiar senhorial.
            Em 1621, as benfeitorias de Catarina de Pontes, do esposo Pero Nunes e dos filhos ainda infantes, Salvador, Pedro, Maria e Ana, eram bastante variadas. Não obstante, não tinham produção alguma relacionada com o algodão, acontecimento raro na vila de São Paulo. Eram sitiantes do Ipiranga, onde possuíam as casas de dois lanços de taipa de mão cobertas de telha e outro de palha com suas parreiras que tinha ao redor, com suas limeiras, laranjeiras, “pacoveiras”, duas restingas de mantimento, valendo todas as propriedades familiares 21$000. As casas da vila de lanços e taipa de pilão com repartimentos custava 11$000. Dentre as lavouras contidas no inventário da senhora, existiam os canaviais de 11$000, 12 alqueires de feijões a 1$900, mais 24$000 em roças. Essa relativa abonança patrimonial poderia ser explicada pelo trabalho das 40 peças indígenas e pelas atividades de negócios realizados pelo casal.[21]
            A família da inventariada Maria Gama era composta pelo filho João e o esposo Diogo Mendes. Moravam nos fogos de taipa de pilão, cobertos de telha, com corredor, quintal, na rua do padre vigário, entre o senhor Domingos Fernandes de Parnaiba e Leonel Furtado. O domicílio custava 30$000. Apesar de não constar as lavouras e os sítios, possuíam 38 cativos da terra e várias ferramentas, dentre elas 5 foices, 4 já bem usadas, 10 enxadas gastas e uma balança.[22]
            A inventariada Izabel Soares, o filho João, o senhor e cônjugue Gabriel Pinheiro, com 24 cativos da terra sobreviviam do sítio que tinha mantimento de 12$000. Todavia, a família realizava mercancia, pois possuíam 284 alqueires de farinha postos em Santos, que remontavam 113$000.[23]
            Em fins da década de 1620, Jeronyma Fernandes, casada com Balthazar Gonçalves, tinha 5 filhos solteiros e as filhas Ana Gonçalves casada com João Fernandes e Maria Gonçalves, falecida esposa de Miguel Garcia Carrasco. O casal e a prole solteira eram sitiantes. Os móveis domésticos eram bem poucos comparando com outras famílias senhoriais, havendo apenas uma caixa velha sem fechadura ($400), outra pequena com a fechadura ($800) e um bufete solitário ($320). No entanto, contavam com a mão-de-obra  escravista de 17 indígenas.[24]
            A viúva Joana de Castilho, proprietária de um monte-mor de 42$905, administrava uma escravaria de 20 indígenas, que trabalhavam no domicílio de dois lanços com quintal, corredor, onde se dividiam com os fogos de Henrique da cunnha (25$000). O patrimônio da senhora era formado pelos 43 alqueires de feijões (3$600) e mais 16 alqueires de trigo (1$600).
            Habitava um domicílio com poucos móveis, apenas 2 redes velhas, 2 toalhas, 2 guardanapos, o travesseiro, o cobertor velho, 2 botijas, a caixa com suas fechaduras e 2 bancos. Fazia parte dos artefatos de vestir o manto de sarja velho e roto, a camisa velha e o pano de algodão que lhe servia de colchão. No quintal, criava 4 capões, 15 galinhas, 22 frangos e 10 patos.
            Contraiu dívidas com o rendeiro Bartholomeu Rodrigues ($800) e com o genro Pero Cassara ($800), esposo de Margarida Rodrigues.[25] Em testamento, realizava uma ampla distribuição dos escravos aos familiares.
“...deixava a sua neta Maria Cassara, filha do dito Pero Cassara, uma rapariga por nome Brigida para a servir e pede a seus herdeiros que lh’a não tiverem nem metam em partilhas porque assim é sua vontade e que assim mais deixava ao dito seu genro Pero de Cassara o sitio dela testadora que esta no Uquausu no Mato Grande e que deixava a sua neta Joana filha de seu filho Domingos Rodrigues uma moça do gentio da terra por nome de Potencia para a servir e que a não vendam nem troquem e a tratem como forra que é e que seu filho Domingos Rodrigues tinha em sua casa uma negra do gentio da terra por nome Paula a qual fora de seu filho Jorge Rodrigues e que por morte dele a levara seu irmão Domingos Rodrigues para sua casa sendo que pertencia a dita negra sua neta bastarda filha de seu filho Jorge Rodrigues por nome Ana por sua filha e sendo caso que se levante com ela se lhe dará o que ela testadora deixa a sua neta filha do dito Domingos Rodrigues e que a órfã filha bastarda do dito seu filho Jorge Rodrigues tinha nove almas que lhe ficaram de seu pai as quais estavam em seu poder dela testadora e mandava às justiças de Sua Majestade não lhas tirassem e lhas entregassem para seu casamento visto serem de seu pai e que o outro lanço de casa deixa à dita sua neta filha bastarda do dito seu filho Jorge Rodrigues visto que seu pai fazer as casas”.[26]
           
Ainda no início da década de 1630, Messia Bicudo e a família mantinham 81 negros da terra que produziram todo patrimônio: as casas da vila, vizinhas dos fogos de Pedro da Silva, de dois lanços e corredor (20$000), outro fogo que estava na rua que ia à São Bento (20$000), o sítio do Ipiranga (8$000) e mais 2 alqueires de feijão (20$000).
            A morada tinha como utensílios 2 caixas, 8 cadeiras, uma mesa usada com a sua cadeira, o tacho de cobre maior e outro menor, 14 peroleiras, o bufete, a caixa de sete palmos sem chave, 2 toalhas de mesa, 3 toalhas de rosto e 4 guardanapos, uma prensa nova e outra quebrada. Os artefatos de estanho eram representados por 6 pratos e um jarro. A prataria era formada por 2 taboleiras e 5 colheres.
            A senhora ainda contava com o espelho para vestir e a vasquinha de cetim preto adamascado, com um saio de melcochoado negro, a saia de doze passames, mais outro saio de dois passames na fortuna de 20$000, e o manto de recadilho velho e roto (2$000).[27]
            No findar da década, no inventário de Catarina de Siqueira, filha de Aleixo Jorge, havia os fogos da vila, valendo 32$000, de dois lanços grandes com o quintal, os quais partiam com os chãos de Salvador Pires e Pero Vaz de Barros. A senhora e o esposo João Barroso traziam para Piratininga os produtos importados do Velho Mundo e até das Índias Orientais. No rol de bens estavam os utensílios domésticos de cuidados pessoais como a bacia de latão utilizada para urinar ($320), o catre (1$000), o cobertor (1$280), 2 fronhas de travesseiro e outras duas de almofadinhas ($640), 4 lençóis (1$920), o espelho (1$600) e 4 frasqueiras (3$840).
            Para as refeições a família senhorial tinha o tacho de cobre já usado (1$920), o tacho e a bacia (3$840), umas toalhas de mesa, uma velha e outra nova ($960), a toalha de Ruão de águas às mãos ($320), a toalha de volante de seda (1$280), 12 guardanapos ($840), 50 peroleiras (16$000), 4 gamelas redondas ($800), o bufete ($800), 4 caixas de variados tamanhos com suas fechaduras (6$480).
            A louça era constituída por 3 pratos pequenos e outros 3 maiores ($960), 8 pratos de louça grandes ($400), 4 pequenos e outro maior ($960). Além dessas, havia aquelas originárias da Metrópole, como os 40 pratos de louça, conjunto do qual faziam parte também as tigelas e os pires (1$640), 4 pratos grandes ($800), 2 tigelas grandes do Reino ($240), o jarro de louça, 2 bandejas pequenas eram provenientes da Índia ($320), o funil de folha de Flandres ($160).
            Na casa ainda havia 8 cadeiras de estado (6$400) e como artefatos de adorno possuía 2 tapetes (10$400) e o único vaso ($800). De noite, o domicílio era iluminado por dois castiçais velhos ($640).
            Sendo uma das raras mulheres de letras, Catharina de Siqueira e os familiares liam a segunda parte de Vilhegas, outra obra de Fernão Mendes Pinto, a segunda parte de Heitor Pinto, as “Novelas” de Cervantes, o “Confessionário” e mais cinco obras que se desconhece por não estar especificado no seu inventário.[28]
            As jóias arroladas eram a cadeira de ouro e oito anéis, o par de cabaças de ouro, o par de pendentes, dois pares de arrecadadas, uma lua. Todas essas preciosidades pesavam nove onças e valiam 52$000. Também possuíam 8 onças e meia de prata em que entra uma tamboleira grande e uma menor, três colheres de prata, as chapas e os alfinetes de prata, os colchetes. Esses custavam 9$120, e as duas correntes de corais 4$000.
            Fora do interior da moradia, eram arrolados o “sítio da banda de além de taipa de mão, com seus corredores e com um pedaço de algodoal e árvores de espinho, tudo avaliado em 30$000, com todas as benfeitorias dentro dele”. Nesse local, criavam 50 rezes (54$000), o cavalo (3$200) e 38 suínos (8$000).[29]
            No inventário de Catharina Nogueira, estava arrolado o sítio, localizado na Quitana, onde tinha os fogos (10$000), 60 alqueires de trigo a $200, o alqueire no valor de12$00, em que trabalhavam 8 escravos índios.[30]
            Vale lembrar que a partir do final da década de 1630, a vila de São Paulo contava com a formação dos estamentos senhoriais, que centravam as suas atividades nos negócios com Santos, Rio de Janeiro e no ultramar. As senhoras eram proprietárias de escravarias de diversos tamanhos. E, nesse período, havia também um significativo aumento da produção e circulação do algodão e dos seus derivados.
            Nesse contexto, a liderança doméstica das mulheres senhoriais sobre os fogos, sítios e as escravarias era importante para a manutenção econômica da vila de São Paulo de Piratininga. Solteiras, casadas ou viúvas, as senhoras trabalhavam nas lavouras de produtos alimentícios, no cercamento dos gados e na indústria caseira de algodão, auxiliando no processo de constituição do patrimônio familiar. Desta forma, os estamentos senhoriais conseguiam acumular alguns objetos de luxo com a venda dos poucos excedentes.




[1] “The househould division of labour reflected the social definition of diferençe between husbund and wife: taks performed were complementary. The diferenciation of worke roles was based in part on the notion that women had to bear children and manage the household”. Louise Tilly and Joan W. Scott. Women, work & Family. New York, USA: Holt, Rinehart and Winston, 1989, p. 45.
[2] A casa é considerada como sinônimo de fogo ou domicílio. Eni de Mesquita Samara aprofunda a questão em Família e vida doméstica no Brasil. Do engenho aos cafezais. São Paulo: Humanitas, Estudos CEDHAL, Nova Série, no. 10, 1999.
[3] Alcântara Machado. Vida e morte do bandeirante. São Paulo: Martins, L.T.DA, 1969, p. 51.
[4] Ibidem, p. 52.
[5] Ibidem, p. 95.
[6] Ibidem, p. 74.
[7] Fernand Braudel. Civilização material, economia e capitalismo. Séculos XV-XVIII. São Paulo: Martins Fontes, 1997, vol. 1, pp. 161.
[8] Inventário de Francisco Ribeiro (1615). I. T. São Paulo: DAESP, 1920, vol. 4, pp. 47-50.
[9] Leila Mezan Algranti. “Famílias e vida doméstica”. In: SOUZA, Laura de Mello e. (org.). História da vida privada no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 91.
[10] Ibidem, p. 105.
[11] Ibidem, p. 123.
[12] Belmonte. Nos tempos dos bandeirantes, p. 52.
[13] Ibidem, pp. 108-109.
[14] A respeito da importância econômica dos sítios ver: Rosângela Ferreira Leite. Nos limites da colonização: ocupação territorial, organização econômica e populações livres pobres (Guarapuava, 1808-1878). São Paulo: Tese de doutorado apresentada ao departamento de História – FFLCH/USP, 2006, pp. 110-130.
[15] Inventário de Ana de Moraes (1616). I. T. São Paulo: DAESP, 1921, vol. 25, pp. 1-101.
[16] Inventário de Balthazar Nunes (1623). I. T. São Paulo: DAESP, 1920, vol.6, pp. 23.
[17] Inventário de Manuel Vandala (1627). I. T. São Paulo: DAESP, 1920, vol. 7, p. 53.
[18] Idem, pp. 68-69.
[19] Inventário de Izabel Felix (1596). I. T. São Paulo: DAESP, 1920, vol. 1, pp. 120-182.
[20] Inventário de Mercia Rodrigues (1605). I.T. São Paulo: DAESP, 1939, vol. 30, pp. 32-45.
[21] Inventário de Catarina de Pontes (1621). I.T. São Paulo: DAESP, 1920, vol. 5, pp. 417-466.
[22] Inventário de Maria da Gama (1624). I.T. São Paulo: DAESP, 1920, vol. 6, pp. 198-212.
[23] Inventário de Izabel Soares (1630). I.T. São Paulo: DAESP, 1920, vol. 8, pp. 111-128.
[24] Inventário de Jeronyma Fernandes (1630). I.T. São Paulo: DAESP, 1920, vol. 8, pp. 223-244.
[25] Inventário de Joana de Castilho (1633). I.T. São Paulo: DAESP, 1920, vol. 8, pp. 335-357.
[26] Testamento de Joana de Castilho (1631). I.T. São Paulo: DAESP, 1920, vol. 8, p. 341.
[27] Inventário de Méssia Bicudo (1631). I.T. São Paulo: DAESP, 1920, vol. 8, pp. 286-306.
[28] Cf. Aldaíza Bittencourt. A mulher paulista na História. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, S.A., 1954, p. 44.
[29] Inventário de Catharina de Siqueira (1638). I.T. São Paulo: DAESP, 1921, vol. 10, p. 511.
[30] Inventário de Catharina Nogueira (1638). I.T. São Paulo: DAESP, 1921, vol. 12, pp. 206-124.

A MERCANTILIZAÇAO NA VILA DE SÃO PAULO (1554-1640). IGOR RENATO M. DE LIMA


“...a nove dias do mês de agosto de mil e seiscentos e três anos nesta vila na casa da câmara estando ai os oficiais para fazerem câmara e acordarão o seguinte – que era necessário haver nesta vila uma mulher que vendesse para parecer bem Francisca Rodrigues cigana que o fará muito bem e logo lhe foi dado juramento de santos evangelhos para o vereador Francisco Viegas para que bem e verdadeiramente sirva de venda tratado verdade e dando a cada  um o seu e levara de premio de cada tostão seis reis e ela o prometeu fazer para não saber assinar e assinei eu tabelião pr ela a seu rogo – Antonio Rodrigues tabelião que o escrevi...”.[1]

Ata da Câmara da vila de São Paulo, 1603.

As mulheres senhoriais paulistas realizavam inúmeras atividades econômicas. Cuidar das boiadas, das lavouras, negociar por intermédio das redes de crédito e débito eram tarefas que marcavam o cotidiano feminino dos estamentos senhoriais. A partir disso, as senhoras tinham papéis fundamentais na acumulação de patrimônio e na subsistência das famílias.
No fim do quinhentos e início do século posterior, as boiadas eram levadas para o litoral através do Caminho do Mar, os quais se originaram das antigas trilhas indígenas. As vendas de gado tornaram-se fonte de riqueza para as primeiras famílias senhoriais paulistas. Nessas tramas de mercantilização incipiente, as mulheres senhorias negociavam geralmente com os homens de mercancia, que saíam em direção ao litoral.[2]
Logo no início do Seiscentos, formava-se também uma rede de pequenos negócios de produtos alimentícios, chegando uma dessas atividades a ter participação feminina, conforme informou a ata de 1603, que expressava a atuação da Cigana Francisca Rodrigues, “mulher que vendesse para parecer bem”, o que faria “muito bem”, segundo a própria expressão da instituição.
As lojas espalhavam-se pela vila com a inserção dos oficiais mecânicos como alfaiates, marceneiros e forasteiros que compareciam à câmara para prestar “juramentos” e “fianças”.[3] A atuação das mulheres nas pequenas vendas e comércio era inferior aos negócios de maior vulto.[4] Seis anos depois, do pedido da cigana Francisca Rodrigues, os oficiais camarários relatavam que “...nesta vila avia muitas tavernas em as quais se vendia vinho muito ruim e muito caro por medidas muitos ruins e pequenas”.[5]
As carnes do gado da terra eram vendidas conjuntamente com os mercados de vinho e de produtos externos à vila. As autoridades da Câmara procuravam constantemente controlar essas atividades por meio da cobrança de taxas, além de tentar impedir a saída de gado da vila. De acordo com a ata de 1610,
“e assim assentarão os ditos oficiais no mesmo dia atrás declarado que porquanto  a casa do conselho e a cadeia e açougue se avia de fazer ente ano por de todo haver necessidade assentarão que todos os mercadores que de fora viessem a esta vila vender vinhos de entrada de cada peroleiro pagassem meio tostão de cada peroleiro para as ditas obras isto sendo mercadores de fora ou da terra que vinho do reino vendam para iso cada um juramento dos peroleiros que na vila meter para vender sob pena de quem o contrario fizer perca todo o vinho que e acusador e de como assim assentarão o assinarão eu Simão Borges escrivão da câmara o escrevi – Belchior da Costa – Garcia Rodrigues – Francisco da Gama – Belchior de Quadros”.[6]

Apesar de ser proibido o acesso dos oficiais mecânicos à administração das Câmaras, tal fato ocorria comumente nas regiões mais distantes do centro do Império Metropolitano Colonial.[7] Manuel Esteves, membro da governança, era também “mercador com loja aberta e venda”.[8] Lucrecia Leme, senhora de 16 escravos,  era proveniente de uma família de prestígio social. Casada com o comerciante Francisco Barreto, senhor de grandes negócios tanto em Santos como no Rio de Janeiro, entrava para o universo da mercancia. Quando viúva, a mais abonada da vila com 651$280, ficou responsável, juntamente com o cunhado João Barreto, comerciante de Angola, por receber o pagamento das inúmeras dívidas ativas do seu esposo e cobrar o recebimento da fortuna familiar com o juizado dos órfãos. Dentre os devedores, havia alguns do gênero feminino: Benta Dias, mulher que era de Antonio Furtado devia 6$800;  Beatriz Bicudo, esposa  de Antonio Raposo Tavarez, 2$560; Paula Maciel, 2$380; Agostinha Rodrigues cônjuge de Diogo Moreira, 3$600.[9]
Maria de Moraes, moradora do termo da Mooca, casou-se pela primeira vez com o comerciante Francisco Ribeiro. Cabia-lhe, portanto, na sua parte das benfeitorias: as quatro roças (33$000), o sítio, no qual está em sua fazenda (25$000), os 40 alqueires de feijões (6$400), o algodoal (1$500), o gado vacum (21$760), as casas em que mora nesta vila (40$00).  A égua castanha (3$200), o cavalo castanho novo (4$500), os perus todos (1$840), 16 aves de galinhas (1$000), toda a criação de porcos (14$820) perfilavam nas criações do sítio.  Faziam parte das ferramentas das lavouras: as enxadas todas (5$240), as nove foices (1$800), as sete cunhas (1$400), o machado ($400), a enxó ($200), os dois podões ($260), o alambique (1$600), o espeto ($040), o almofariz ($800), e a prensa (1$280).
Do rol das suas dívidas destacavam-se em mãos de Januário Ribeiro $440, em Custódio Aguiar $800, João Pedroso 17$030, em Geraldo Correa 4$500, em Belchior de Ordas 11$520, em Luiz Fernandes Bueno $640, em Jorge Hedra $500, em Christovão de Aguiar de Tanhanhe, em Jorge Peres $120, em Paulo da Costa 3$840, em Diogo de Lara 1$320. [10] Dentre a parte da herança do marido, a viúva ainda negociava os aluguéis das casas das filhas Ana e Sebastiana, que valiam 25$000.[11] E pagava ainda a Paulo da Silva uma vara de carnequim.[12] No processo de partilhas de patrimônio, quando perguntada pelo juiz dos órfãos Antonio Teles, respondia que
“determinava com os órfãos perante o dito curador a qual respondeu que ela os queria ter em seu poder com consentimento do dito curador e os queria alimentar á sua custa assim machos como fêmeas e que os machos trazia na escola e que isso queria fazer por serem filhos sem fazenda nem legítima dos ditos menores se gastar cousa alguma senão somente á custa dela dita viúva e visto pelo dito curador andarem os meninos na escola e sua mãe obrigar-se a os sustentar e alimentar e obrigar-se a isso sem os órfãos gastarem de seu cousa alguma houve por bem com aprazimento do dito juiz que a dita sua mãe os tivesse enquanto ela quisesse e a justiça não determinasse outra cousa a requerimento do dito curador e o assinaram...."[13]

Casou-se novamente com outro mercante, Domingos de Abreu, que em Santos, no Rio de Janeiro, na Bahia e em Pernambuco, negociava com os mais variados produtos: sal, pimenta, cravo, louças, vinhos e os tecidos da terra e do ultramar.
Ao Pero Dias, a viúva Maria devia 41 arrobas de carne de porco posta em Cubatão e cem varas de lingüiça (30$240), ao Fernão Dias, o velho, 40 arrobas e três arretéis de carne de Porco (25$840), ao Manuel Preto devia 25 arrobas de carne de porco postas em Cubatão (16$000), à velha viúva Leonor Leme das carnes que lhe vendia 4$300,  ao Manuel Esteves 1$120, ao Fernão Dias, o moço $640, ao Gonçalo Freire 6$480, ao Romão Freire 18 côvados de tafetá preto e duas oitavas de retrós pretos (5$200), ao João Clemente 1$620, ao Gonçalo Madeira $400, Manuel Ribeiro Boto $320, ao Gonçalo Pires 35$760, ao Custodio Nunes 6$000, às Bulas da Santa Cruzada 12$670. Tinha ainda dívidas com os filhos do primeiro marido Francisco Ribeiro, relativas à partilha, no valor de 107$048.
Maria de Moraes possuía extensa rede de créditos, das quais destacam-se as com Gaspar Dias, de Pernambuco 3$420, e com Jorge de Souza 10$240 em 4 alqueires de farinha de guerra embarcados. André Fernades de Parnaíba devia ao espólio 40 peroleiras de vinho (2$040); Rodrigo Fernandes Gomes $320 do sal que vendeu em Santos; Antonio Corrêa de Santos, uma dúzia de galinhas que se levou ao Rio de Janeiro 1$200; João da Silveira, morador do Rio de Janeiro, 2$000; Lazaro Fernandes, morador do Rio de Janeiro, 11$680; Antonio de Sampaio, morador do Rio de Janeiro, 2$000; Antonio Rodrigues $160 de sal que se vendeu em Santos.[14]
A senhora também chegava a entrar em litígios jurídicos caso necessitasse, pois processou a viúva Ana Ribeiro dos $560 que lhe devia do inventário do marido Manuel Requeixo, o qual fora soldado do capitão André Fernandes.[15]
Embora tivesse uma rede de comércio significativa, o seu patrimônio diminuía consideravelmente de 278$7000 no inventário do primeiro cônjuge, em 1615, para 95$799 do segundo, depois de dez anos. A escravaria indígena também decrescera de 35 para 20. Todavia, “senhora nobre” ainda tinha grande prestígio entre as autoridades, encaminhando o termo de curadoria, para criar os seus filhos, ao Juiz Antonio de Brito Cassão, que a mandava jurar
“aos Santos Evangelhos sobre um livro deles para que fosse curadora de todos seus filhos assim dos primeiros como deste pequeno agora filho do defunto Domingos de Abreu porquanto Francisco Rodrigues seu primo do dito defunto requereu ao dito juiz que fizesse a dita viúva curadora por ser mulher nobre honrada apta e suficiente e das qualidades que Sua Majestade em sua ordenação manda para o poder ser e que o dito Francisco Rodrigues desistia de qualquer direito que para o ser podia ter o que visto pelo dito juiz o houve por assim por bem e a houve a dita viúva Maria de Moraes por encarregada na dita curadoria e fazenda obrigação que os alimentará com todo o ensino necessário como mãe que é a que tudo se obrigou fazer e guardar e cumprir e dará fiança a tudo e de tudo assinou aqui seu procurador Pedro Taques..."[16]

A viúva recebia toda a fazenda e dinheiro proveniente da herança. Pero de Moraes trazia da Bahia 72$720 em produtos de luxo, dando 5$000 em pimenta e cravo, para a sogra Maria de Moraes.[17] Dentre as dívidas passivas do segundo marido contavam 29$000 em dinheiro e 15$000 em um vestido de melcochoado, que tinha com Francisco Álvares, natural da cidade do Porto, e morador e dono de uma loja no Rio de Janeiro.[18] Também dizia a senhora, ainda seis anos depois de iniciado o inventário, que era
“paga e satisfeita de Manuel Mourato Coelho de dois conhecimentos que era a dever a meu marido Domingos de Abreu que Deus haja os quais estão botados em inventário e por assim ser paga lhe passei a presente e pedi a meu genro procurador Pero de Moraes esta passasse por mim e assinasse o qual pagamento fez o dito a João Clemente..." [19]

Ressalta-se a importância da viúva Maria de Moraes na vila de São Paulo. Senhora de escravos, ativa na rede mercantil da vila e ainda bem relacionada com as autoridades administrativas como o Juizado de Órfãos, fazia parte, portanto, do restrito estamento dominante paulista.
A vila de Piratininga cresceu consideravelmente durante os anos de 1595 a 1625, assim como expandiu a sua economia com a presença cada vez mais intensiva de trocas comerciais, sendo importado com mais regularidade sal e objetos de luxo que, segundo French,
“vinham de várias partes do mundo, mostrando que o comércio mundial avançava mesmo nos lugares mais remotos. Vestidos, tecido, ferragoulos, e cobertores de Londres, Florença, Flandres e Holanda chegavam ao planalto juntamente com machados de França, sal e vinho de Portugal, canequin das Índias Orientais, e goma e porcelana da Índia. Esta relação como os mercados coloniais era importante para Piratininga, pois incentivavam uma maior participação do comércio (...)”.[20]

No avançar da década de 1630, a economia senhorial paulista passou a intensificar a sua rede de crédito e débito em conseqüência do crescimento das trocas comerciais. A partir de então, as mulheres senhoriais começaram a intensificar a sua participação também nas relações mercantis em formação, pois os negócios da vila atingiram uma complexidade maior devido à trama de comércio com a região litorânea da América Portuguesa.
Algumas das senhoras e suas famílias concentravam grande parte da riqueza da vila. No inventário de Catharina de Siqueira, havia um monte-mor avaliado em 1:194$980, que era elevado também devido aos 450$000 adquiridos da fazenda que possuía no Rio de Janeiro.[21]
Muitas vezes os negócios femininos eram realizados no interior da própria família, como também ocorreu com Izabel de Ribeiro que pagou à sogra a quantia de 40$000 em uma pipa e meia de vinho, proveniente da mercancia com o Rio.[22]
Essas “senhoras negociantes”, parafraseando Belmonte, auxiliavam seus esposos nas vendas da vila, pois estes mantiverem-se, muitas vezes, afastados nas veredas dos sertões ou nas redes de comércio do Caminho do Mar.[23] Nessas trilhas, comercializavam farinha, carne e gado e trafegavam mesmo com dificuldades constantes como ataques de onças,  surtos de sarampo e pestes.[24]
Para a utilização dos caminhos, as autoridades camarárias pediam, freqüentemente, às senhoras da vila que deixassem seus quintais, sítios e fazendas livres para as passagens das boiadas, sendo que em ata do dia 12 de março de 1594, os oficiais mandavam Maria da Pena limpar o caminho.[25] Essas constantes requisições, segundo Ilana Blaj, demonstravam a importância da ampliação das trilhas para os contatos de comércio e a manutenção do domínio das autoridades administrativas da Coroa.[26]
Embora a economia paulista não fosse diretamente agro-exportadora para a Metrópole, como ocorria em outros locais da Colônia, o planalto e a vila começavam a manter estreitas relações nas praças mercantis do Atlântico Sul. Nas tramas de negócios ultramarinos, alguns negros africanos eram trocados por produtos como água ardente, farinha de mandioca e carnes salgadas originárias do comércio da Serra do Mar.[27]
Na vila de São Paulo de Piratininga constituía-se uma sociedade escravista, na qual imperavam variados tamanhos de escravarias. Os cativos eram constantemente partilhados nas heranças das famílias senhoriais.  Como força de trabalho deviam auxiliar nas roças e nas atividades de artesanato. Com o aumento das escravarias que ocorreu marcantemente a partir de 1610, também floresceu a formação das atividades comerciais de produtos alimentícios. As redes de trocas se davam por meio de mecanismos de créditos e débitos, nos quais havia uma série de empréstimos e dívidas de bens produzidos na vila  com outras áreas da colônia.
Segundo Nazzari, “os débitos pendentes eram parte importante da maioria dos inventários, constituindo em geral em legítimas, dotes, dízimos e empréstimos tomados do juízo dos órfãos, ou de mercadorias compradas e não pagas”.[28]
Em São Paulo, assim como no resto da colônia, havia dificuldades de se conseguir moeda. Tal acontecimento deve-se à existência do sistema de crédito, no qual as operações eram feitas em base da troca, mas tendo o dinheiro como o valor referencial.[29]
Conforme percebe-se nas atas camarárias, que se faziam sob a ótica dos interesses das autoridades da governança da terra, os mercadores atingiam os seus tentáculos na vila de São Paulo, pois era esse o mais importante entreposto entre o mar e o sertão, onde se configurava ponto estratégico para a expansão colonial. Conquistar, povoar, produzir o botim e depois explorá-la, foi um processo fundamental na realidade da vida material da colônia.
A vila tornava-se de maneira contraditória o mais importante núcleo de povoamento de disperssão e de sedimentação populacional da América Portuguesa. Por meio desse centro, dava-se a utilização da mão-de-obra cativa e o início da agricultura comercial.[30] Em meados do século XVII, a mercantilização em formação da vila fazia com que despontasse uma reduzida rede de abastecimento integrada à exploração do Antigo Sistema Colonial.[31]
Comandar as roças, administrar a pecuária e realizar os negócios eram atividades que as mulheres senhoriais paulistas faziam no dia-a-dia. Dessa forma, essas senhoras conseguiam manter uma relativa autonomia na conjuntura econômica da vila de São Paulo, centrada na incipiente mercantilização dos produtos alimentícios e na força de trabalho escravista indígena para a acumulação de patrimônio.
No entanto, havia na sociedade paulista valores extra-econômicos, como a distribuição de honras e mercês e da capacidade dos senhores paulistas de comandar as expedições, pois para além dos ideais nobiliárquicos que os estamentos senhoriais paulistas tinham e o desejo de se tornarem senhores de escravos, havia também o anseio por chefiarem as guerras no sertão.[32]
As mulheres senhoriais obtinham além da posse de escravos, jóias, vestidos importados e outros artigos de luxo, como as roupas importadas da Metrópole, Flandres e de outras paragens. As vestes e adereços davam-lhes uma posição social destacada da população indígena e dos livres pobres.[33] Por fim, as senhoras acabavam por assumir os papeis designados aos senhores. Formava-se, então, uma sociedade hierárquico-estamental, na qual, segundo Blaj, “é todo um estilo de vida, a predominância de um código de honra e valores, que pode ser sintetizado na expressão ‘viver à lei da nobreza’. Formas de tratamento diferenciadas conforme o estamento, obtenção de cargos, dignidades e mercês, privilégios nas vestimentas e no porte de armas...”.[34]
O estilo de vida “nobre” era dificultado pela necessidade das senhoras de fazer negócios com os mercadores coloniais. Dessa forma, as senhoras-mercantes realizavam serviços mecânicos e na prática distanciavam-se dos ideais de nobreza presentes nos altos estamentos. Embora fosse em número ainda reduzido, a atuação feminina nos negócios auxiliava na formação da incipiente mercantilização da vila.[35] Entretanto, além da diferença de status, havia uma diferença de gênero, pois existia um número bem menor de mulheres no comércio, principalmente quando se tratava da mercancia através do Caminho do Mar.[36]
Enfim, nos estamentos senhoriais, a atuação econômica feminina era centrada no auxílio aos familiares, criando animais, explorando a mão-de-obra escrava indígena e negociando com os agentes das redes comerciais do Atlântico Sul. Diferentemente da participação masculina, essas atividades eram realizadas no universo da casa e do sítio das famílias senhoriais paulistas. Logo, as mulheres senhoriais tinham um poder intermediário, localizado no espaço doméstico, onde também alocavam-se as tecelagens de algodão da terra.




[1] Ata do dia 09/06/1603. In: Atas da câmara da vila de São Paulo (1596-1622). São Paulo: AMSP, vol. 2, 191, pp.132-133.
[2] Segundo Caio Prado Junior “existe, portanto, desde o início da colonização paulista, um nítido deslocamento do seu centro, do litoral, onde teve começo, para o planalto. Isto constituiu o primeiro fator que vai influir na constituição e desenvolvimento e de todo o sul da colônia. E este seria São Paulo”. Caio Prado Junior. Evolução Política do Brasil e outros estudos. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1969, p. 94-95.
[3] Belmonte, p. 88.
[4] Sobre a atuação feminina nas redes comerciais ver Maria Odila da Silva Dias. Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1995.
[5] Ata do dia 09/06/1603. In: Atas da câmara da vila de São Paulo (1596-1622). São Paulo: AMSP, vol. 1, 191, p. 234.
[6] Ata do dia 07/02/1610. In: Atas da câmara da vila de São Paulo (1596-1622). São Paulo: AMSP, vol. 1, 191, pp. 259-260.
[7] Segundo Prado, “...a antiga legislação portuguesa que lhe impunha algumas diminuições, como a de não poder ocupar cargo  dos Senados das Câmaras (Câmaras Municipais). Caía em desuso no Brasil, e encontramos mercadores nas Câmaras de todas as cidades e vilas da colônia. Formavam mesmo uma categoria reconhecida e oficialmente prezada, e nesta qualidade participavam dos conselhos da administração...” Caio Prado Júnior. Formação do Brasil Contemporâneo. São Paulo: Brasiliense, 1999, pp. 295-296.
[8] Ata do dia 01/07/1623. In Atas da câmara da vila de São Paulo (1623-1628). São Paulo: AMSP, vol. 2, 1915, p. 43.
[9] “João Barreto, curador dos órfãos filhos que ficaram do defunto seu irmão Gaspar Barreto que ele está no caminho de Angola por cujo respeito veio a esta vila para dar contas da curadoria que lhe foi entregue e ora acha estarem as contas do dito inventário erradas”. Inventário de Francisco Barreto (1629). São Paulo: DAESP, 1920, vol. 8, p. 64.
[10] Inventário de Francisco Ribeiro (1615). I.T. São Paulo: DAESP,  vol. 4, pp. 47-50.
[11] Idem, p. 35.
[12] Idem, p. 36.
[13] Ibidem, p. 61.
[14] Inventário de Domingos de Abreu (1625). I.T. São Paulo: DAESP, 1920, vol. 6, pp. 335-425.
[15] Inventário de Manuel de Requeixo (1616). I.T. São Paulo: DAESP, 1940, vol. 31, pp. 51-53.
[16] Inventário de Domingos de Abreu (1625). I.T. São Paulo: DAESP, 1920, vol. 6, pp. 374-375.
[17] Ibidem, pp. 378-388.
[18] Ibidem, p. 399.
[19] Ibidem, p. 424.
[20] John D. French, Op. Cit., p. 97.
[21] Inventário de Catharina de Siqueira (1638). I.T. São Paulo: DAESP, 1921, v.10, pp. 493-520.
[22] Inventário de Manuel Fernandes Sardinha (1632). I.T. São Paulo: DAESP, vol. 8, ps. 458, 483 e 484.
[23] De acordo com Prado “A importância do Caminho do Mar é, portanto, considerável desde o início da colonização. Por ele transitam não só a exportação e importação do planalto, mais ainda os gêneros alimentares consumidos no litoral, todos eles produzidos no interior. O litoral fornecia açúcar, gênero de exportação; mas é do planalto que lhe provinham os mantimentos: a carne, a farinha, a mandioca, os cereais. Até o trigo era então produzido no planalto; exportava-se mesmo daí para os outros pontos do país, e o que é mais interessante e verdadeiramente paradoxal, até para o Rio da Prata. Não se prestava o litoral para tais culturas, e sua dependência do planalto neste terreno foi sempre completa. (...)”. Continuando a sua interpretação sobre a economia da vila, o autor afirma que “entre o planalto e o litoral, pelo Caminho do Mar, há portanto um intercâmbio imenso. São Paulo, como ponto intermediário, como escala necessária deste intercâmbio, aufere dele grandes proveitos. Desde logo, há entre os dois núcleos, São Paulo e Santos, uma ação recíproca permanente, e a importância de um se projeta fatalmente sobre o outro. Ambos se complementam, e no sistema econômico da capitania satisfazem cada qual uma destas funções conexas e inseparavelmente ligadas: centro natural do planalto e porto marítimo. Não fosse a fatalidade da Serra do Mar, e estas duas funções caberiam a um só centro, que englobaria o que hoje constitui as duas cidades. A configuração geográfica do território apartou estas funções. O Caminho do Mar que se articula, restabelecendo a unidade que necessariamente as deve englobar, tirar daí toda a sua força considerável importância. E o sistema São Paulo – Caminho do Mar torna-se o eixo, a base do organismo da capitania”. Caio Prado Junior. Evolução Política do Brasil e outros estudos. São Paulo: Brasiliense, 1969, p.p.106-107.
[24] “A rota que descia a serra do Mar de São Paulo a Santos, ligando o planalto ao litoral, também combinava transporte terrestre fluvial. O primeiro e mais dificultoso trecho, de São Paulo a Cubatão, era percorrido a pé, enquanto o resto de viagem até Santos era completado por canoa. Cubatão, situado ao pé da serra, servia como ume espécie de pedágio. (...)”
“O caminho do Mar, constituía, sem dúvida, o trecho que mais pesava no percurso entre São Paulo e Santos. (...) Com certeza, a trilha para o mar permaneceu um ‘caminho fragoso’ – nas palavras de um nobre seiscentista – pelo menos até o final do século seguinte, mas isto não chegou a isolar a economia paulista do resto da Colônia. Na verdade, os carregadores índios superavam este obstáculo com freqüência e velocidade, completando o percurso de São Paulo a Cubatão em aproximadamente dois a quatro dias”.  John Manuel Monteiro. Negro da terra; índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia. das Letras, 1994, pp. 122-123.
[25] Atas da Câmara da vila de São Paulo (1562-1596). São Paulo: AMSP, 1914, pp. 490-491.
[26] Segundo Blaj, “o Caminho do Mar, na verdade, desempenha um papel fundamental, tanto para a própria colonização portuguesa, quanto para a ascensão hegemônica da região. De um lado, por este caminho, São Paulo assegurou a sobrevivência do litoral, exportando para os núcleos costeiros gêneros alimentícios e gado. Garantiu, assim, em última instância, a sobrevivência da colonização, uma vez que, no período, as articulações Metrópole-Colônia se realizavam, basicamente, com o litoral. Por outro lado, a manutenção das comunicações com Santos e Cubatão viabilizaram a conquista e colonização interioranas, pois é pelo Caminho do Mar que chegavam aos núcleos do planalto tanto os gêneros importados quanto a própria ordem político-adminisrtativa. Este pode ser expressada pelas visitas das autoridades reais, pela manutenção, em Santos de tropas prontas a acudir a defesa do interior e pelas próprias correspondências das autoridades metropolitanas e coloniais que continham determinações a serem cumpridas pelos mandatários locais. Ainda mais, por se situar no ponto privilegiado desta rota, a vila de São Paulo pôde se alcançar como núcleo hegemônico da região...” Ilana Blaj. A trama das tensões. O processo de mercantilização de São Paulo Colonial (1681- 1721). São Paulo: Humanitas/FFLCH/Fapesp, 2002, pp. 171-172.
[27] Conforme Alencastro, “São Paulo – zona marginal do sistema atlântico – desenvolve-se como provedor de alimentos do resto da Colônia, antecipando progresso análogo que impulsionará agricultura de Minas no final do século XVIII. As praças do Norte e Angola importam de São Paulo cal, farinha de mandioca e de trigo, milho feijão, carnes salgadas, toicinhos, lingüiça, marmelada, tecidos rústicos e gibões de algodão à prova de flechas. Tirante a cal marinha cavada dos sambaquis do litoral, os produtos desciam da Serra do Mar nas costas dos índios. Em sentido inverso, subiam – sempre carregados pelos índios – os importados: sal, tecidos, especiarias, vinho, ferramentas e pólvora. Toda essa mercancia, toda essa carga, intensificava o uso de cativos no transporte, nos pousos, roças e trigais paulistas, onde a média de escravos indígenas por proprietários atinge maiores índices históricos: 36,6 nos anos 1640 e 37,9, nos anos 1650. Números bastante altos, mesmo comparados aos das áreas irrigadas pelo tráfico negreiro”. Luiz Felipe de Alencastro. O trato dos viventes. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, pp. 194-195.
[28] Muriel Nazzari. O desaparecimento do dote. Mulheres, famílias e mudança social em São Paulo, Brasil, 1600-1900. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 179.
[29] Ilana Blaj, op. Cit, pp. 111-112.
[30] Ilana Blaj afirma que “aos poucos, as vila de São Paulo venceu os problemas que ameaçavam a sua sobrevivência, submeteu o indígena e estruturou uma pequena produção comercializável que a transformou em núcleo de poder na região. A partir de meados do século XVII, principalmente por intermediário do desenvolvimento do comércio com Santos, o núcleo paulista se integrou, cada vez mais, numa economia de mercado, o que criou condições para a própria expansão da colonização do interior, processo este capitaneado pela vila de Piratininga, visível pela integração crescente dos bairros e pela nomeação, via Câmara, dos seus respectivos capitães juntamente com a instituições de suas capitanias”. Idem, p. 200.
[31] Ilana Blaj, Idem.
[32] Eni de Mesquita Samara. Família, mulheres e povoamento. São Paulo: EDUSC, 2003.
[33] Braudel, analisando as transformações das roupas e os bens de artigo de luxo, afirmou que “a história das roupas é menos amedótica do que parece. Levanta todos os problemas, os das matérias-primas, dos processos de fabrico, dos custos de produção, da fixidez cultural, das modas, das hierarquias sociais. Variado, o traje por toda a parte se obstinha em denunciar posições sociais. Fernand Braudel, Op. Cit., p. 281.
[34] Ilana Blaj. Op. Cit, pp. 331-332.
[35] Charles Boxer, analisando a atuação feminina no plano da expansão ibérica, relata que em Omuz, as viúvas tornavam-se cabeças de casal e passavam a comandar as armadas de navio, sendo por isso chamadas de “armadoras de navio”. C. R. Boxer. A mulher na expansão ibérica. Lisboa: Livros horizontes, LTDA, 1975, p. 98.
[36] Dalene Abreu-Ferreira demonstrou que no norte de Portugal, nas cidades de Aveiro, Vila do Conde, Viana do Castelo e Ponte de Lima, durante o Quinhentos, existiam mulheres, geralmente viúvas, que atuavam nas redes comerciais de peixes e de mercadorias a longa distância. Essas mulheres comercantes investiam geralmente no comércio com o morte da Europa, Inglaterra e Paises Baixos. Dessa forma, a historiadora defende a idéia que apesar de não serem predominante, as mulheres possuíam um papel mais atuante na mercancia do que afirmava a historiografia portuguesa. “Fishmongers and shipowners: women in maritime of Early Modern Portugal”. In: Sixteenth Century Journal. Vol. 31, no. 1, Special edition: gender in Early Modern Europe. (Spring), 2000, pp. 7-23.