domingo, 3 de junho de 2012

GÊNERO, TENSÕES E CONFLITOS NA VILA DE SÃO PAULO (1554-1640). IGOR RENATO M. DE LIMA


“...há muitas viúvas casadas segunda vez sem darem partilhas a seus filhos nem as querem dar....”
Juiz dos Órfãos Bernado de Quadros[1]

“....pelo abuso que há nesta terra em quererem ter seus filhos depois de casadas as viúvas contra o que Sua Majestade manda...”
Juiz dos Órfãos Antonio Telles[2]

            Na vila de São Paulo, as mulheres senhoriais, muitas vezes, adquiriam um importante espaço de acordos com as autoridades. Esses acordos eram realizados habitualmente pelas viúvas que adquiriam um papel de destaque nessa sociedade. Essa atuação tornava-se significativa quando abordados os litígios jurídicos das partilhas patrimoniais presentes nos inventários, as quais eram realizadas após a morte de seus antigos maridos.
No último quartel do Quinhentos, a prática de inventariar era cada vez mais constante nos estamentos senhoriais da vila de São Paulo. Originários do Velho Mundo, esses processos adquiriam novos contornos na América. As escravarias indígenas e mesmo os raros escravos da Guiné eram arrolados e distribuídos entre os herdeiros.
Responsáveis pelos arrolamentos e partilhas dos bens, o juiz de órfãos era em alguns momentos escolhido pela Coroa e em outros pela Câmara. Esses oficiais da jurisprudência colonial mantinham uma posição social de destaque.[3] Segundo as normas ditadas pelas Ordenações Filipinas de 1603, ao morrer, aqueles que possuíam algum filho (ou filha) órfão, menor de 25 anos, tinham seus bens arrolados e cabia à instituição do Juizado de Órfãos cuidar da criação e do seu patrimônio. Para isso, existiam os curadores ou tutores, que se responsabilizavam não só pela administração e conservação da sua fortuna, mas pela educação da prole até a sua emancipação.
            Caso os órfãos fossem proprietários de bens móveis, o juiz os vendia e os passava para os tutores, os quais por sua vez deveriam comprar bens de raiz para que houvesse renda.[4]  Esse patrimônio comprado só poderia ser vendido caso não fosse em prejuízo do órfão e sob a autoridade do juizado. O dinheiro da venda dos bens móveis, jóias e pedras preciosas ficava depositado em uma arca fechada com três chaves (para o juiz, o escrivão e o depositário). Entretanto, cabia ao juiz a retirada de alguns bens para o sustento dos órfãos durante dois anos. Passado esse tempo, o mesmo processo deveria se repetir, até o menor atingir a maioridade, ou quando este casar-se depois dos 18 anos com a autorização do juizado.[5]
            Quando um dos cônjuges falecia, ficava sob o encargo do juiz dos órfãos a entrega dos bens aos curadores, que deveriam ser escolhidos pelo pai testamenteiro. [6] Na morte do marido a mulher era denominada como “cabeça de casal”. Conforme as Ordenações Filipinas,
“...se algum órfãos não tiver Tutor, ou Curador, que lhe fosse deixado em testamento, e tiver mãe, ou avó, que viverem honestamente, e não forem já outra vez casadas, e quiserem ter as tutorias, ou curadorias de seus filhos, ou netos, não consentirá o Juiz dos Órfãos, que usem delas até perante ele se obriguem de bem e fielmente administrarem os bens e pessoas de seus filhos, ou netos: e que havendo casar, antes que casem, pedirão que lhes sejam dados tutores ou curadores, aos quais entregarão todos os bens, que aos ditos órfãos pertencerem; para o que renunciarão perante o juiz o benefício da lei do Velleano, a qual diz, que nenhuma mulher pode ser fiador, nem obrigar-se por outrem, a qual Lei lhes será declarada qual é, e o favor, que por dela lhes é dado”.[7]

As mulheres casadas em meação, quando viúvas, mudavam de categoria social, tornando-se “em posse e cabeça de casal”.[8]  No entanto, elas eram vistas como tuteladas, devendo ser auxiliadas pela legislação e pelo juizado dos órfãos, o qual tinha a obrigação de mudar a tutoria para um homem caso as mulheres “desbaratassem” e danificassem o patrimônio da prole. No entanto, “se a tal viúva foi mulher de Fidalgo, ou de Desembargador, ou cavaleiro, se a Justiça da terra tiverem dela tal informação por honra do marido e da sua linhagem façam-no-lo logo a saber antes de outra cousa, para mandarmos o que for Direito sem escândalo de sua geração”.[9]
As práticas das partilhas, muitas vezes, se configuravam de maneiras diferenciadas da normartização, conforme assinalou Caio Prado,
“as leis não só eram uniformemente aplicadas no tempo e no espaço, como freqüentemente se desprezavam inteiramente, havendo sempre, caso fosse necessário, um ou outro motivo justificado para a desobediência. E daí, a relação que encontramos entre aquilo que lemos nos textos legais e o que efetivamente se pratica é muitas vezes remota e vaga, se não redondamente contraditória”.[10]

            As divisões dos bens também não eram imediatamente realizadas, levando longos tempos em que ocorriam tensões e negociações das partes envolvidas no processo. Muitas mulheres senhoriais, viúvas dos senhores que faleciam fora da vila, passavam a ter a curadoria e a tutoria dos filhos em conjunção com os homens procuradores que se responsabilizavam pela representação jurídica do gênero oposto.
            É interessante observar que nos processos dos 78 inventários realizados pelas mulheres, os seus viúvos, ou filhos acabavam controlando o processo de partilha. Diferentemente, nos 132 inventários dos homens, havia a participação das viúvas, e quando os inventariados eram viúvos, as filhas tinham direito à herança  e participavam dos conflitos judiciais neles ocorridos. Além disso, nota-se a importância das divisões dos bens entre os familiares, pois segundo Bacellar,
“o fundamental, na análise do processo de transmissão fundiária e de fortuna, é atentar para os resultados a longo prazo. Os dados da partilha, as avaliações dos adiamentos em prol deste ou daquele filho, tudo é de inegável importância. Porém acima de tudo, os desdobramentos finais podem ser diversos daqueles sugeridos pelos documentos, pois uma propriedade (...) poderia estar em um patamar de exploração bastante variável, desde a extrema lucratividade até o déficit crônico. Logo, herdá-la poderia ser uma grande vantagem ou desvantagem”.[11]

Em um ciclo de vida centrado no “Ancien Régime biológico”, como dizia Braudel, as mulheres, apesar de estarem sempre “expostas” à maternidade, eram numericamente superiores aos homens e podiam assim constituir um excedente de viúvas.[12] Também a vila de São Paulo passava por esse processo, que se estendeu por um longo tempo na região. A população masculina era caracterizada por uma movimentação em direção ao sertão e à costa brasílica. E as mulheres ficavam conseqüentemente com os “maridos ausentes” ou em viuvez.[13]
Essas viúvas paulistas, habitualmente, casavam-se novamente e com freqüência não perdiam a guarda dos filhos e dos bens.[14] Era o caso de Suzana Rodrigues, casada com o sapateiro Damião Simões, que faleceu por volta de 1575. A senhora também era irmã do juiz ordinário Balthazar Rodrigues e do tabelião Paulo Rodrigues, e mãe de Damião Simões, que aprendia o ofício de barbeiro em São Vicente com Antonio Rodrigues. Em Piratininga, a viúva casou-se novamente com Martim Rodrigues, comerciante espanhol, pecuarista. Com esse cônjuge teve ainda mais três filhas, Maria, Tenória e Ana da Veiga.
Viúva pela segunda vez, passou a administrar um patrimônio de 90$000 e 57 cabeças de gado, além de controlar uma força de trabalho de 25 escravos.[15] De acordo com o inventário do segundo cônjuge:
"foi entregue toda esta fazenda conteúda neste inventário á viúva Suzana Rodrigues por estar satisfeito dela ser mulher para governar a sua casa e casar a sua filha por se já de idade para isso e haver casado já outras duas em ausência de seu marido Martim Rodrigues e ela se deu por entregue e prometeu cuidar de sua filha e casá-la a melhor que puder com seu consentimento dele dito juiz e porá em cobro e arrecadação e multiplicação como cousa sua própria e pela confiança que tem dela e o prometeu fazê-lo assim e tudo perante seu filho Damião Simões que a tudo esteve presente e por ela não saber assinar eu tabelião assinei por ela eu Simão Borges”[16]

Fazia parte do espólio da família as obras O Retábulo da vida de Christo, uma Chronica do Grão Capitão, Instruções de Confessores e Mysterios da Paixão. Essas obras demonstram que a senhora Suzana Rodrigues podia “governar a sua casa e a casar a sua filha” e tinha uma posição mais destacada na sociedade senhorial e estamental da vila de São Paulo, apesar do primeiro esposo ser sapateiro e do primogênito ter o ofício de barbeiro. [17]
Lucrecia Leme, viúva de Fernão Dias, moradora do termo da vila chamado Pinheiros, fora curadora e testamenteira do esposo, que lhe deixara toda a escravaria e a terça. Segundo o próprio testamenteiro,
"declaro que eu deixo á dita minha mulher todas as peças forras que em minha roça se acharem para ela só se sirva delas e não entrem em partilhas e peço ao senhor desembargador o haja assim por bem o reverendo padre Gabriel Gonçalves com ele determinarão isso porque assim lh'o requeiro e peço o hajam assim por bem as quais peças forras são Gonçalo tupinaem, Simão topinaem, Joane a sua mulher Helena e uma filha Juliana tupinaem, André tupinaem"[18]

Ao morrer o marido, a mesma senhora pedia que abrissem o inventário, o qual era avaliado por dois homens e depois chancelado por Francisco Sotil de Siqueira, “provedor mor dos órfãos e defuntos ausentes e resíduos de todo este estado do Brasil”, que ordenava que ela ficasse
 " cabeça de casal, por tutora e curadora de seus filhos órfãos e que nenhuma justiça entenda com ela enquanto as ditas partilhas não forem feitas ou até fazerem e que ao tempo de se fazerem se dê cumprimento ao testamento conforme a vontade do defunto e que entanto os ditos órfãos se possam sustentar e alimentar de monte mor que receberá justiça e mercê".[19]

Como responsável pelos filhos, escravarias e patrimônio, a viúva, por meio do procurador e genro Simão Borges “protestava” ao mesmo juiz porque “correndo algum perigo as peças ou outra coisa conteúda neste inventário enquanto se não fizessem as partilhas quer por via de morte quer fugir de ser tudo por conta e risco do monte maior que ela como cabeça do casal tinha em seu poder o que protestava não ser por conta dela mais do que lhe couber o seu quinhão e o dito desembargador mandou tomar o seu protesto...".[20]
Após o falecimento do primeiro marido de Maria de Moraes, o curador Ascenso Ribeiro fazia uma diligência para ela, sua cunhada, dizendo ao Juiz dos órfãos Antonio Telles que a viúva queria os filhos
“em seu poder com consentimento do dito curador e os queria alimentar á sua custa assim machos como fêmeas e que os machos trazia na escola e que isso queria fazer por serem filhos sem fazenda nem legítima dos ditos menores se gastar cousa alguma senão somente á custa dela dita viúva e visto pelo dito curador andarem os meninos na escola e sua mãe obrigar-se a os sustentar e alimentar e obrigar-se a isso sem os órfãos gastarem de seu cousa alguma houve por bem com aprazimento do dito juiz que a dita sua mãe os tivesse enquanto ela quisessem e a justiça não determinasse outra cousa a requerimento do dito curador e o assinaram...."[21]

As tensões entre os curadores e tutores se aprofundavam em alguns momentos das partilhas. Em 1613, a viúva Feliciana Parenta caia nas malhas de uma complicada trama familiar. Os avós paternos dos seus filhos Ana Camacho e Domingo Luiz, o velho pediam a curadoria, o valor correspondente a 75$000. No entanto, a avó materna Clara Parenta e Pedro Madeira, cunhado do falecido passavam a brigar pela curadoria e tutoria dos “infantes”. A viúva Feliciana ficava um tempo "recolhida ", vivendo "honradamente"[22], e a “matriarca” e avó Clara tornava-se a administradora do patrimônio, pagando a parte do neto Gonçalo Madeira, em 1633.[23] A mesma avó também era responsável pelo neto Francisco, filho de Maria Jorge.[24]
A parte que cabia a Feliciana como viúva era umas casas dessa vila, no valor de 20$000, o sítio de Além (6$000), 24$000 de roças, a metade do gado (20$800), o milho (5$000), a ferramenta toda (4$800), um quintal de algodão (1$600), a metade dos feijões ($800), os porcos (1$500), uma poldra (1$600), 2 caixas (2$400), as cadeiras e a mesa (4$440) o estanho todo (2$800), o tacho ($800), 1 cobertor (1$000), a bacia ($320) e ainda 25$460 em dívidas ativas.[25]
Novamente casada com Manuel Alves Pimentel, a senhora Feliciana  ficava desta vez com o quinhão de 66$710. Nas dívidas do inventário havia uma contraída com a sua mãe no valor de 44$710. No entanto, dessa vez, a viúva tornava-se curadora de seus filhos e de sua fazenda para que “olhasse por eles ensinando-lhe todo o bem...."[26]. Como viúva pagava à mãe o que o antigo marido devia em gado. Também pagava outras dívidas como os que deviam a Cornélio Darzan. [27]
Nesse caso, percebe-se a autoridade firme de Clara Parenta sobre a filha Feliciana, a qual só conseguira uma relativa autonomia perante a mãe na segunda viuvez, provavelmente após uma série de confrontos entre as duas senhoras.
O papel das viúvas na sociedade da vila parece ser um assunto recorrente para os próprios moradores. Izabel Antunes, após enviuvar de Francisco de Saraspe, tornava-se “cabeça de casal” e “senhora de gente”, e casou-se novamente com Crysostemo Álvares. Sendo casada, a viúva era obrigada a delegar o cuidado dos filhos a um outro curador. No entanto, a senhora insistia tanto em continuar com a gerência do patrimônio familiar e da prole que o juiz Bernado de Quadros acabava se colocando contrário à prática das viúvas de não concordarem com a legislação e com as partilhas.[28]
O juiz dos órfãos Antônio Teles, em 1615, também considerava abusiva a atuação das senhoras viúvas na terra de São Paulo, por elas casarem-se em segundas núpcias e ainda continuarem a cuidar dos filhos e, provavelmente, também do patrimônio familiar.[29]
Percebe-se que nem sempre as autoridades abriam espaço para negociação de maneira fácil, tendo as mulheres senhoriais paulistas que se impor contrariamente às posições legais e aos patriarcas da jurisprudência. Nessa perspectiva, nota-se que havia um conflito latente que de modo contraditório demonstrava a opressão e a atuação do gênero feminino dos estamentos senhoriais.
Felipa Vaz, cunhada de Amador Bueno e filha do capitão João Branco, por direito, recebia a metade do patrimônio do esposo, e ainda era declarada como curadora de seus filhos órfãos enquanto viúva porque os fosse ensinando, doutrinando e apartando do mal e chegando para o bem.  Ela prometeu fazer o ofício de curadora de que fazia “este termo que por não saber assinar assinou pela dita viúva seu pai Francisco João...".[30]
Os legados e as disposições davam às mulheres uma certa capacidade de negociação que dependia muito das suas condições materiais e do seu status frente as suas famílias. Para não desfazer-se do patrimônio familiar, os estamentos senhoriais precisavam dar continuidade à produção das suas lavouras.
A viúva Cecília Gaga era declarada como “curadora, tutora e administradora dos filhos”. A sua rede de atuação ultrapassava a vila de São Paulo ao comprar as “moradas de Santos” de Lopo Ribeiro.[31]
Antonia Gonçalves, casada em segundas núpcias com Jorge Fernandes, tinha o retorno da curadoria dos órfãos Izabel, Maria e Raphael para “doutriná-los” e “alimenta-los”, graças a desistência do curador Miguel Carrasco.[32] Mas o inventário do primeiro marido não terminava antes de conflitos com os filhos, se arrastando até 1659.
Em 1633, o curador Diniz Cardoso desistia da função, entregando à viúva Maria Leite os filhos, os bens materiais e os 90 cativos indígenas.[33]
Existia ainda mais uma possibilidade da mulher assumir a curadoria, era quando o curador falecia. Foi o que ocorreu com Madalena Fernandes, que tomou posse da curadoria na ocasião do falecimento do genro Antonio da Silveira.[34]
Eventualmente, ocorriam conflitos violentos no interior familiar. Em 1636, Maria Nunes, acusada de ser mandante do assassinato do esposo Antonio de Almeida viu-se na prisão, juntamente com os escravos indígenas Sicília e Francisco, que serviam à senhora. No entanto, a viúva, libertada das grades, tomava segundas núpcias com João Fernandes Camacho, e recebia os 28$510 que lhe cabiam da meação dos bens. Desse modo, a senhora era libertada e não foi provada a sua culpa no caso. Além disso, a “honra” dessa senhora parece não ter sido manchada e ela voltava a ter o antigo status.[35]
Havia casos em que as viúvas passavam por momentos de necessidade, como Paula Gonçalves, que mesmo recebendo uma escravaria de 19 cativos, na meação, era obrigada a contar com o auxílio paterno para pagar as inúmeras dívidas do antigo esposo Domingos Bicudo.[36] A viúva Ignácia Alves, senhora de 93 cativos provenientes da herança, e recebendo 62$000, pedia ao juizado para não vender os bens devido à necessidade de “sustento dos filhos”.[37]
Não eram somente as mulheres que se casavam mais de uma vez, também os homens senhoriais faziam isso. Esses novos casamentos podiam causar mais problemas no momento da divisão do patrimônio. Nas partilhas de Francisco de Proença, João Ribeiro, filho de Francisco de Proença e Izabel Ribeiro, recebia do inventário materno 168$960. Ana de Proença, filha de Francisco de Proença e Méssia Bicudo, casada com Salvador Pires de Medeiros, ficava com a importância de 306$360. Magdalena Dias, esposa de Gomes de Proença, e cunhada do falecido, estava em situação desconfortável por “seu marido não estar na terra e porque é mulher que não entende nem sabe o que nisso há de fazer".[38] A situação tornava-se mais tensa quando João Ribeiro entrava com um requerimento na tentativa de impedir a distribuição do patrimônio pelos herdeiros legítimos. Nesse processo, justificava a "nobreza" paterna e a impossibilidade da órfã ilegítima e mameluca Luzia de receber 15$000.[39]
A divisão do legado entre os filhos não visava a fragmentação dos bens maiores como as benfeitorias e o gado, pois isto acarretaria a ruína econômica familiar. Para impedir isso, as mulheres senhoriais casavam novamente ou tentavam manter o controle dos bens produtivos intactos para não prejudicar a produção familiar. [40] Além disso, de acordo com Bacellar
“...a fortuna dos casais de elite podia ser transmitida aos herdeiros sob três formas: o dote, a terça e a partilha final dos bens. Suas funções e dimensões eram plenamente distintas, do mesmo modo que suas composições. Dote e partilha raramente deveriam ocorrer na mesma ocasião, pois o dote só tinha existência precedendo a partilha. Mas uma morte súbita e precoce dos pais poderia apressar a sucessão, e os filhos que até então não houvessem recebido dotação não mais o receberiam, pois a legítima advinda do inventário eliminaria a necessidade de tal evento”.[41]

Nas partilhas dos inventários paulistas, a maioria das filhas e dos “seus maridos abriam mão da herança por estarem satisfeitos com o que já haviam recebido. Abriam mão, também, porque, se seus dotes eram muito maiores do que a sua legítima, e esperava-se que devolvessem o excesso a seus irmãos e irmãs”.[42]
Embora o discurso das autoridades como do Juizado de Órfãos fosse fortemente carregado de concepções do poder patriarcal, as mulheres viúvas senhoriais, possivelmente, tinham atuações significativas no momento das partilhas do patrimônio dos seus falecidos maridos. Mas os acordos eram repletos de tensões e intrigas familiares em razão da partilha.
Nos conflitos para a divisão do patrimônio, acabavam negociando com as autoridades da vila como o Juizado de Órfãos, ou com familiares como sogros e cunhados. Essas negociações, no entanto, podiam variar conforme a posição social feminina, pois viviam em uma “sociedade estamental, fundada nos privilégios jurídicos como elemento diferenciador”.[43]

Dotes e legítimas
A posição de casada, conforme as normas do Velho Mundo, era condição primeira para a consolidação dos estamentos senhoriais na colônia. Mas antes do casamento, as “raparigas” senhoriais aprenderiam a coser e bordar, enquanto que os meninos deveriam aprender a ler e a escrever.[44] As mulheres senhoriais paulistas, entretanto, deveriam casar-se mediante o pagamento do dote, o que significava a presença de recursos para a formação de novos núcleos familiares.[45]
Os estamentos senhoriais Seiscentistas, como afirmou Muriel Nazzari, partilhavam e reagrupavam o patrimônio com os casamentos e os re-casamentos das viúvas dos senhores sertanistas e das senhoras falecidas nos partos. Desse modo, “o sobrevivente em geral tornava-se a se casar, voltando a unir duas propriedades diferentes e ampliando a unidade de produção".[46]
Em meados do século XVII, os dotes das famílias senhoriais eram fartos em termos das posses. Fernão Dias declarava em testamento um imenso rol de dote para a filha Izabel Paes:
“cento e cinqüenta cruzados em dinheiro e cento e três peças duas fêmeas e um macho, outra havia cinco ou seis meses que houve Gaspar Golaço por quarenta cruzados em dinheiro, outro rapaz por nome Luiz que ele logo vendeu a Pero Taques por onze mil réis. Outrossim lhe dei vinte e três cabeças de gado vacum a saber doze vacas com onze filhos e filhas a saber sete fêmeas quatro machos pela qual criação meu genro Manuel João lhe dava por ela vinte cruzados e meio mais uma égua mansa com podro pela qual me davam quinze cruzados e mais lhe dei três porcos cevados que valiam doze cruzados e mais três porcas e outras bacoros dez ou doze cabeças que bem valiam quinze cruzados, e assim lhe dei uma saia de Londres florentino e um gibão de tafetá que valiam vinte e cinco cruzados mais lhe dei dois calçados a saber dois pares de botinas e uns chapins um manto de sarja de nove côvados que custou quatro cruzados e mais cinco côvados de baeta roxa que custou cinco mil réis um chapéu que custou quatro cruzados um cobertor de papa novo que custou dez cruzados um anel de ouro que custou três/quatorze mil réis em carnes de porco salgadas por um lanço de casa que [trecho sem transcrição] pude fazer mais lhe dei mandioca que comeu dois anos ele e sua mulher e suas peças [trecho sem transcrição] criação de porcos que ao menos podia valer cinqüenta cruzados e porque todas estas cousas que lhe dei em casamento delas me não quis dar quitação e se foi da capitania e ele é obrigado a tornar por minha morte ao monte o que mais leva [trecho sem transcrição] e lhe cabe fiz esta declaração para que saiba o que levou para que torne o que mais levou para os meus filhos fiquem todos iguais em suas legitimas".[47]

No segundo quartel do século, o comerciante Lourenço Fernandes Sanches deixava aos descendentes consideráveis somas em dote.  Catharina Freire, casada na Bahia com Manuel Maciel Aranha, era privilegiada, recebia umas casas em 100$000 e uma dúzia de vacas parideiras, no valor de 30$000 no sítio. Bartholomeu Freire, o filho, era dotado com  uma negra da Guiné (40$000). Para a neta, filha de Lourenço Freire, deixava 60$000.[48]
Antonia Gonçalves privilegiava as filhas já distribuindo os bens no testamento. Izabel Rodrigues recebia cruzados que pagava à João de Santana por sua Negra Leonor, a metade de umas casas (12$000) como benfeitoria;  2 cadeiras e 1 mesa com sua cadeira (2$400), 1 catre ($600), meia arroba de estanho (4$480), 1 caixa com sua fechadura (1$000), 1 colchão e 1 fronha e 1 lençol (6$000),1 travesseiro (1$200), 1 toalha de água ás mãos e seis guardanapos e umas toalhas de mesa (1$200) como bens domésticos e estoque.
Como bens pessoais e de prestígio lhe foram dados 1 roupão (12$000), 1 manto (6$000), 1 corpinho de veludo e um gibão de cetim vermelho (8$000). A mãe ainda lhe fornecia uma herança imaterial como 24 vacas e um boi (33$200), 2 éguas (4$000), 2 porcas e uma marrã e um cachaço (2$000).  Além disso tudo, a senhora distribuía seus cativos: Gonçalo e Luzia sua mulher (10$000), Lucrecia (24$000), Manuel (24$000), Bartholomeu (20$000),  João (12$000) e Miguel (12$000).
Na legítima de Joana de Castilho havia 1 roça nova (4$000), 25 rezes (21$600), 2 porcas com 1 bacora e 1 bacoro (2$000), 1 cavalgadura, 1 manto (7$000), 1 vestido para Antonio Rodrigues (5$000), 1 saia de tafetá (10$000), 1 roupão de tafetá preto (5$500), 1 saia verde (7$000), 1 corpinho de tafetá (1$700), 1 mesa com duas cadeiras de estado (2$240), 1 rede  (1$600), 2 toalhas de mesa que levaram 4 varas ($800), 1 toalha de mãos e 6 guardanapos ($600), 1 travesseiro e 1 colchão (4$400), meia arroba de estanho (4$880). Dos cativos para os serviços recebia Joanne (50cruzados), outro negro (45 cruzados), Marina (50cruzadoss), Vitória (42 cruzados) e Jorge.
No rol da filha Maria Gonçalves, que possivelmente ficara desfavorecida no sistema de divisão do patrimônio materno, os bens da casa predominavam: 2 cadeiras, 1 toalha, 6 guardanapos, 2 toalhas de água ás mão, 1 saleiro, 1 jarro, 1 castiçal, 19 pratos de estanho dois grandes e 7 pequenos, 1 colchão com dois lençóis, 1 almofada, 1 cobertor, 1 tacho. Além destes recebia 2 foices, 2 enxadas e 1 machado, 1 égua e 1 poldro, 2 porcas. Recebia também 1 roupão, 1 saia,1 gibão e apenas a escrava forra Brizida.[49]
Mesmos os senhores menos abonados deixavam algum dote. Antonio Gonçalves dotava a filha Leonor Esteves com 4 vacas.[50] Simão Borges Serqueira dava em dote a filha Maria um gentio da Guiné por nome Antonio.[51]
Em 1628, Leonor Leme, casada com Thomé Martins, filha de Matheus Leme e da falecida Antonia de Chaves, recebia saias e um manto amarelo. À imã, Marina de Chaves, casada com Antonio Lourenço  lhe foi dado um valor mais alto, 23 rezes.[52]
Desse modo, os estamentos senhoriais possuíam o costume de privilegiar alguns de seus filhos dotando a eles escravos, como aconteceu com Luiz Furtado que declarou em testamento deixar a rapariga Tenória, para a sua neta Barbara, filha de Mathias Cardoso; e para Luzia Furtado, sua filha, o índio Martinho, sua esposa e mais as moças Francisca e Violante.[53]
Jeronyma Fernandes, em 1630, distribuía as escravarias entre os filhos. No testamento declarou:
"á dita minha filha  Izabel deixo um chapéu. A meu filho João mando se lhe dê uma rapariga por nome de Justina em satisfação de [trecho sem transcrição] a sua irmã. A meu filho Antonio deixo [sem transcrição] nome Paschoal declaro que meu primeiro marido Francisco da Gama houve um filho [trecho sem transcrição] do gentio da terra de nação biobeba por nome Diogo da Gama mando que seja forro e liberto".[54]

Mesmo que fossem pequenas, as escravarias recebidas no dote auxiliavam as famílias senhoriais nos trabalhos diários. Como era o caso de Potencia Leite que recebia para o casamento Henrique e a mulher Fabiana, Joana com seu marido Felipe.[55]
Além dos cativos, as senhoras obtinham benfeitorias como Ana de Proença, que era dotada pelo pai, Salvador Pires, recebendo "duas moradas das casas nesta vila de taipa de pilão coberta de telha e umas delas que estão na rua de Pedro Madeira".[56]
Nos testamentos dos senhores, nota-se a presença de dotes relativos a familiares sem posses, como Maria Rodrigues, que recebia de Calixto da Motta, seu irmão, a moça Ângela. O mesmo senhor deixara para a sobrinha Beatriz Gomes o cativo Diogo, em 1616.[57] Catharina Felix, ganhava a metade da terça de Miguel Sanches em 1620. [58] Esses auxílios demonstram a necessidade das mulheres senhoriais de casarem com dotes. De acordo com Nazzari,
“a contribuição da esposa com o seu dote era vital para a manutenção de sua nova família, pois ela trazia consigo grande parte do necessário para dar início a um estabelecimento produtivo. Os índios com que contribuía trabalhavam para prover a subsistência própria e a da família e produziam mercadorias para vender. Além dos índios, seu dote podia incluir terras e casas e talvez um ou dois escravos africanos. Muitas mulheres contribuíam com gado, porcos ou cavalos; outras traziam consigo roças de algodão, trigo ou mandioca, prontas para a colheita. Devido à  falta de moeda de moeda sonante no Brasil do século XVII, poucas mulheres traziam dinheiro para o casamento; em lugar disso, contribuíam com mercadorias disponíveis para a venda, tais como carregamentos de farinha ou de trigo, que seriam vendidos para fornecer o capital para a compra de gado, ferramentas ou suprimentos".[59]

            Pode-se considerar que as mulheres senhoriais paulistas realizavam arranjos familiares no momento da divisão do patrimônio nas partilhas das heranças, utilizando e se beneficiando das práticas do dote e das terças. No entanto, esses acordos variavam conforme a habilidade individual e a posição sócio-econômica feminina.
            Nas negociações jurídicas as mulheres senhoriais, e principalmente as viúvas, adquiriam uma posição de destaque perante as autoridades, pois elas representavam um domínio intermediário entre os senhores e as populações gentílicas. Além do mais, algumas vezes, assumiam posições de chefia familiar, substituindo seus antigos maridos até os seus filhos crescerem. No entanto, as senhoras também podiam casar novamente, constituindo novos núcleos de famílias e tentando manter o controle do patrimônio dos filhos do primeiro esposo.
            As mulheres senhoriais paulistas adquiriam uma autonomia relativa na sociedade estamental senhorial e escravista, entrando em tensões com o juizado dos órfãos, realizando negociações com as autoridades e pagando esmolas às instituições religiosas. Apesar do domínio masculino e da opressão feminina, essas senhoras, principalmente quando viúvas, conseguiam formar, contraditoriamente, um poder intermediário nessa sociedade hierárquica e desigual.


[1] Inventário de Francisco de Saraspes (1614). I.T.  São Paulo: DAESP, 1920, vol. 5, p. 35.
[2] Inventário de João do Prado (1615). I. T. São Paulo: DAESP, 1920, vol. 5, p. 97.
[3] Segundo a normatização do Código Filipino, “e o Juiz dos Òrfãos deve com grande diligência e cuidado saber quantos órfãos há na cidade, vila, ou lugar, em que é juiz, e fazê-los todos escrever em um livro de cada órfão, e cujo filho é, de que idade, e onde vive, e com quem, e quem é o seu tutor, e curador. E deve saber quantos bens tem móveis e de raiz, e quem os traz, e se andam bem aproveitados, danificados, ou perdidos, e por cuja culpa e negligência, para os poder aproveitar e arrecadar. E assim deve fazer pagar aos órfãos toda a perda e dano em seus bens receberam, por aqueles que nisso achar negligentes, ou culpados. E o juiz, que o assim cumprir, pagará aos ditos órfãos toda a perda e dano que por isso receberem”. In: “Título LXXXVIII. Dos Juízes dos órfãos” das Ordenações Filipinas (1603). Ordenações e leis do Reino de Portugal recopiladas por mandato d’ El Rei D. Felipe, o primeiro. São Paulo: Edição Saraiva, vol. 1, pp.468.
[4] Ibidem, p. 477.
[5] Ibidem, pp. 476-484.
[6] “Título CII. Dos tutores e curadores que se dão aos órfãos”. Ordenações Filipinas (1603). Ordenações e leis do Reino de Portugal recopiladas por mandato d’ El Rei D. Felipe, o primeiro. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, vol. 5, 1985, pp. 994-1004.
[7] Ibidem, pp. 998-999.
[8] “Título XCV, Como a mulher fica em posse e cabeça de casal por morte do marido”. Ibidem, pp. 949-954.
[9] “Título CVII. Das viúvas, que alheam, como não devem, e desbaratam seus bens”. Idem, pp. 1015-1016.
[10] Caio Prado Júnior. Formação do Brasil Contemporâneo. São Paulo; Brasiliense, 1999, p. 301.
[11] Carlos de Almeida Prado Bacellar. Os senhores da terra: famílias e sistema sucessório de engenhos do oeste paulista, 1765-1855. Campinas: Área de Publicações CMU/Unicamp, 1997, p. 18.
[12] Segundo Braudel, “...as mulheres estão terrivelmente expostas pelas sucessivas maternidades.Todavia, se bem que os homens sejam mais numerosos ao nascer (ainda hoje, 102 para 100), o total os números que possuímos, a partir do século XVI, revela que as mulheres levam a melhor sobre os homens, nas cidades e até nos campos (com poucas exceções, entre as quais, por pouco tempo, Veneza e mais tarde São Petresburgo). As aldeias de Castela, onde são feitos inquéritos em 1575 e 1576, possuem todas um lote excedentário de viúvas”. Fernand Braudel. Civilização material, economia e capitalismo. Séculos XV-XVIII. As estruturas do cotidiano: o possível e o impossível. São Paulo: Martins Fontes, vol. 1, 1997, p. 75.
[13] Maria Odila Leite da Silva Dias. Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1995, p. 29.
[14] Discutindo a condição social das senhoras viúvas nas Minas, Ida Lewkowicz e Horacio Gutiérrez notaram que as viúvas tornavam-se, geralmente, “as gerentes dos bens” dos filhos menores, apesar das restrições legislativas como a perda da guarda do patrimônio da prole caso casassem novamente. Ademais, o momento da viuvez parecia ser privilegiado, pois, finalmente, as mulheres podiam estar à testa dos negócios. Ida Lewkowicz & Horacio Gutiérrez. “As viúvas em Minas Gerais nos séculos XVIII e XIX”. In: Estudos de História. Franca, vol.4, 1997, pp. 136-137.
[15] Inventário e testamento de Damião Simões (1578). I. T. São Paulo: DAESP, vol I, pp. 1-20. Inventário de Martim Rodrigues (1612). I. T. São Paulo: DAESP, vol. 2, 1920, pp.5-76.
[16] Inventário de Martim Rodrigues (1612). I. T. São Paulo: DAESP, vol. 2, 1920, pp 15-16.
[17] Ibidem, pp.12-13.
[18] Testamento de Fernão Dias (1601). I. T. São Paulo: DAESP, 1920, vol. 1, p. 416.
[19] Ibidem, pp. 418.
[20] Ibidem.
[21] Inventário de Francisco Ribeiro (1615). Op. Cit, p. 61.
[22] Inventário de Domingos Luiz, o moço (1613). I. T. São Paulo: DAESP, 1920,  vol. 3, p. 17.
[23] Ibidem, pp.108-119.
[24] Inventario de João Tenório (1634). I. T. São Paulo: DAESP, 1920,  vol. 9, p. 341.
[25] Ibidem, p. 88.
[26] Inventario de Manuel Alves Pimentel (1632). I. T. São Paulo: DAESP, 1921, vol. 31, p. 176.
[27] Ibidem, p. 183.
[28] Inventario de Francisco de Saraspe (1614). I. T.  São Paulo: DAESP, 1920, vol. 5, p. 34.
[29] Inventário de João do Prado (1615) I. T.  São Paulo: DAESP, 1920, vol. 5, p. 97.
[30] Inventario de Francisco Bueno (1638). I. T. São Paulo: DAESP, 1920, vol. 5, pp. 1-64.
[31] Inventário de Francisco Dias Pinto. (1611). I. T. São Paulo: DAESP, 1920, vol. 3, p. 30.
[32] Inventário de Raphael Dias (1625). I. T. São Paulo: DAESP, 1920, vol. 6, pp. 162-163.
[33] Inventário de Pedro Dias (1633). I. T. São Paulo: DAESP, 1920, vol. 9, pp. 53-72.
[34] Inventário de Pedro Domínguez (1633). I. T. São Paulo: DAESP, 1920, vol. 9, p. 203.
[35] Inventário de Antonio de Almeida (1636). I. T. São Paulo: DAESP, 1921, vol. 10, pp. 227-324.
[36] Inventário de Domingos Bicudo (1637). I. T. São Paulo: DAESP, 1921, vol. 10, pp. 433-437.
[37] Inventário de Simão Borges Cerqueira (1640). I. T.  São Paulo: DAESP, 1921, vol. 13, pp. 264-265.
[38] Inventário de Francisco de Proença (1638). I. T. São Paulo: DAESP, 1921, vol. 11, pp. 419-493.
[39] Ibidem.
[40] Bacellar, abordando o processo sucessório da transmissão de bens das famílias de elite dos senhores de engenho Oeste paulista, tem como idéia fundamental que as famílias proprietárias de engenhos privilegiavam a sucessão masculina nas partilhas das heranças. Além disso, os filhos dessa elite econômica eram obrigados a migrar para áreas distantes da origem. Desse modo, seu interesse está nos movimentos migratórios, principalmente masculinos, dessa camada social. Com o adiantamento da herança que os filhos homens recebiam, eles acabavam formando uma nova unidade produtiva. E, a partir dessa migração, podiam se enriquecer mais do que os filhos que haviam ficado na casa dos pais. Tal fato, dificilmente ocorre na vila de São Paulo, pois o sertão era uma fronteira flexível para a colonização, onde havia um espaço de expedições predatórias de indígenas. Mas ao mesmo tempo, era um local onde existiam maiores dificuldades de enriquecimento do que a vila. Carlos de Almeida Prado Bacellar. Op. Cit.
[41] Idem, p. 127.
[42] Muriel Nazzari, Op. Cit., p. 45.
[43] Antonio Fernando Novais. Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808). São Paulo: Ed. Hucitec, 2001, p. 62-63.
[44] Maria Odila da Silva Dias. Op. Cit, pp. 55-56.
[45] Segundo Muriel Nazzari, "os dotes eram importantes na vida dos proprietários paulistas do século XVII, pois geralmente proporcionavam a maior parte da mão-de-obra e dos meios de produção necessários para um casal dar início a sua nova unidade produtiva. Quando suas filhas se casavam, os pais se privavam de considerável quantidade de bens destinada aos dotes, muitas vezes concedendo dotes várias vezes maiores do que os filhos homens iriam herdar. Mais ainda, considerava-se que era obrigação dos filhos trabalhar duramente para colaborar com os dotes de suas irmãs". Muriel Nazzari. O desaparecimento do dote. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. Cit, p. 45.
[46] Ibidem, p. 42.
[47] Testamento de Fernão Dias (1601). I. T.  São Paulo: DAESP, 1921,vol. 1, pp. 401-412.
[48] Testamento de Lourenço Fernandes Sanches (1627). I. T. São Paulo: DAESP, 1921, vol. 8, p. 202.
[49] Testamento de Antonia Gonçalves (1613). I. T. São Paulo: DAESP, 1921, vol.3, pp. 120-198.
[50] Testamento de Antonio Gonçalves (1628). I. T. São Paulo: DAESP, 1921, vol. 7, pp. 379-401.
[51] Testamento de Simão Borges Serqueira (1632). I. T. DAESP, 1921, vol. 9, p. 39.
[52] Testamento de Matheus Leme (1628). I. T. São Paulo: DAESP, 1921, vol. 9, p. 11.
[53]Testamento de Luiz Furtado (1636). I. T. São Paulo: DAESP, 1921 vol. 10, p.139.
[54]Testamento de Jeronyma Fernandes (1630). I. T.  São Paulo: DAESP: vol. 8, pp. 233-244.
[55]Testamento de Antonio Rodrigues (1614). I. T. São Paulo: DAESP, 1921, vol. 3, 375-387.
[56] Inventário de Salvador Pires (1638) I. T. São Paulo: DAESP, 1921,vol. 11, p. 427.
[57] Inventário de Henrique da Costa (1616). I. T. São Paulo: DAESP, 1921, vol. 4, pp.168-169.
[58] Testamento de Miguel Sanches (1620). I. T. São Paulo: DAESP, 1921, vol. 1, p. 181.
[59] Muriel Nazzari. Op. Cit, p. 59.

HISTÓRIA DAS MULHERES, GÊNERO E SOCIEDADE ESTAMENTAL UMA SÍNTESE HISTORIOGRÁFICA. IGOR RENATO M. DE LIMA


“...há uma incômoda ambigüidade inerente ao projeto da História das Mulheres, pois ela é ao mesmo tempo um suplemento inócuo à história estabelecida e um deslocamento radical dessa história”.[1]

Joan W. Scott

A partir de meados da década de 1980, várias questões importantes passaram a permear o debate sobre a abordagem da História das Mulheres. A perspectiva teórico metodológica de gênero, transformou-se em um modo diferente de analisar as modificações da atuação e condição das mulheres.
O estudo de gênero foi constituído por Joan Scott. Realizando um balanço crítico da historiografia da História das Mulheres, a autora norte-americana defendia a necessidade da utilização do conceito de gênero. A partir disso, defendia a não naturalização da desigualdade e da opressão em relação aos “sexos”. Desse modo, a autora colocava a questão da diferença social, econômica e cultural entre as mulheres e os homens e não da distinção biológica.
Ela “rejeita as explicações biológicas, das quais encontram um denominador comum para diversas formas de subordinação feminina, que advém do fato da capacidade da mulher dar a luz e dos homens terem maior força muscular. Contudo, gênero torna-se um caminho de denotar ‘construções culturais’ – uma ampla criação de idéias sobre o papel das mulheres e dos homens. Esse caminho se refere à origem social exclusiva das identidades subjetivas do homem e da mulher. Gênero, nessa definição, é uma categoria social imposta em um corpo sexual. Gênero parece  tornar-se uma palavra utilizada particularmente prolífera nos estudos sobre sexo e sexualidade, que para isso oferece um caminho de prática sexual diferenciada daqueles papéis designados para os homens e mulheres”.[2]

Nessa perspectiva, também aponta para a necessidade de se compreender as diferentes temporalidades relativas aos gêneros. Isto é, para as “continuidades” e “descontinuidades” das questões das desigualdades e diferenças entre mulheres e homens.
Em síntese, a autora propôs no artigo “Gender: a useful category of historical analysis”, pensar em uma perspectiva analítica que utilizasse, de forma dialética, as relações das categorias gênero, raça e classe. A partir do conceito de “desconstrução" dos discursos, formulou um interessante modo de análise, na qual o interesse estava nas relações de poder.
A historiadora fornece uma significativa reflexão sobre os problemas da utilização da interpretação do patriarcado, que fora uma abordagem muito importante para as feministas marxistas do período anterior. Para Schott,
“teoristas do patriarcado têm chamado a atenção para a desigualdade entre homens e mulheres em importantes direções, mas, para historiadores, as suas teorias colocam problemas. Em primeiro lugar, enquanto elas oferecem uma análise interna para o próprio sistema de gênero, elas também defendem o primado desse sistema em todas as organizações sociais. Mas, as teorias do patriarcado não demonstram como a desigualdade de gênero estrutura todas as outras desigualdades, ou, de fato, como gênero afeta aquelas áreas da vida que não se parecem conectadas com esse problema. Em segundo lugar, se a dominação advém da forma da apropriação masculina da reprodução do trabalho feminino ou na objetificação sexual da mulher pelo homem, a análise apóia-se na diferença física. Qualquer diferença física traz um aspecto universal e imutável, ainda que se os teóricos do patriarcado levam em conta a existência de formas transformadoras e sistemas de desigualdades de gêneros. Uma teoria que se baseia em uma única variável de diferença física propõe problemas para o historiador que empreende uma consistência ou um significado inerente para o corpo humano – fora da construção social ou cultural – e então a a-historicidade do próprio gênero. A história passa a ter um sentido epifenômeno, provendo infinitas variações de temas imutáveis em uma desigualdade fixa de gênero”. [grifo do autor][3]
Dessa forma, o patriarcado deve ser compreendido dentro da um contexto histório específico. Além disso, a autora chama a atenção para importantes questões. “Como a desigualdade de gênero estrutura todas as outras desigualdades?”. Como são transformados os sistemas de desigualdades de gênero? Para responder a essas formulações, expôs a necessidade de serem realizados estudos específicos que tratem das mudanças das relações e das representações dos gêneros.
Como forma de articular um modo interpretativo metodológico e teórico, Scott define gênero como “um primeiro caminho para a significação das relações de poder. Dito de outra forma, gênero é o primeiro campo dentro do qual, ou pelo qual, o significado do poder é articulado”. [4]
A inserção desse debate conduz a perspectivas que se fixam no eixo interpretativo das articulações de poder em relação aos gêneros. Esse conceito traz à luz novos modos de abordagem e um importante método analítico. Conforme escreveu a autora,
“gênero, então, proporciona um caminho para decodificar significados e entender a complexa conexão entre as várias formas de interações humanas. Quando os historiadores olham os caminhos dentro dos quais o conceito de gênero legitima e constrói as relações sociais, eles desenvolvem uma idéia da natureza recíproca de gênero e sociedade em uma contextualização particular e específica nas quais políticas constróem gênero e este constrói política”.[5]

 As categorias de análise construídas por J. Scott abarcam as sociedades industrializadas e o período pós Revolução Industrial, centrado na divisão de classes dos séculos XIX e XX. Outra questão importante, é que a autora volta-se para a Europa e não para as regiões coloniais como a América Portuguesa. Ademais, a própria autora declarou ainda que gênero é uma categoria flexível, a qual deveria estar em constantes transformações por meio das desconstruções de antigas abordagens e da formulação de novas análises críticas. Ou seja, os caminhos que levam à essa elaboração teórica e metodológica de gênero devem ser sempre reformulados e aprofundados pela historicidade dos acontecimentos e pelo criticismo das fontes e da historiografia.[6]
 A partir dessas constatações, é necessário destacar que esse modo de interpretação deve ser reapropriado e modificado para a Época Moderna e de constituição do Antigo Sistema Colonial dos séculos XVI e XVII na América Portuguesa.[7] A partir dessa constatação, nota-se que em uma sociedade escravista, de povoamento colonizador e de mercantilização incipiente, em formação, como a paulista, as relações de gênero devem ser complementares às de “estamento”, que se centravam em valores e morais diferenciados daqueles tratados por Scott.
Por tudo isso, para esta dissertação foram adotados mais três diferentes modos de analisar a o contexto das mulheres senhoriais paulistas. O primeiro, e fundamental, foi o tema da vida material do período pré-industrial desenvolvido por Fernand Braudel. Em segundo lugar as análises de sociedade estamental de Florestan Fernandes, Laima Mesgravis e Ilana Blaj, que abordaram as hierarquias da sociedade colonial. E, por fim, apontam-se algumas questões referentes à escravidão indígena tratada por Jhom M. Monteiro. Todavia, como o objetivo é estudar a atuação das mulheres senhoriais apenas foram feitas algumas considerações sobre esses trabalhos.
Devido aos inúmeros objetos encontrados nos inventários seiscentistas, é necessário destacar a interpretação das condições da vida material, ou da infra-estrutura do período pré-industrial da economia mundo. Para isso, como foi afirmado acima, foram utilizadas algumas referências dadas por Fernand Braudel, no primeiro volume de Civilização Material, Economia e Capitalismo. As estruturas do cotidiano: o possível e o impossível. Nessa obra, o historiador tratou da importância da lenta transformação no universo da vida material – dos consumidores, do consumo e das formas produtivas. Descreveu com densidade as mudanças  quase imperceptíveis das condições elementares da vida, como as formas de alimentar, vestir, morar e de produzir em uma época muito diferente da atual, nesse aspecto. [8]
Esse primeiro volume da obra tripartida de Braudel, abordando o cotidiano e o consumo, ultrapassa o espaço geográfico da Europa e atinge regiões mais distantes dos centros econômicos como o Novo Mundo. Sendo assim, a cotidianeidade é definida pelo autor como
“(...) os fatos minúsculos que quase não deixam marca no tempo e no espaço. Quanto mais se encurta o espaço da observação, mais aumentam as oportunidades de nos encontrarmos no próprio terreno da vida material: os grandes círculos correspondem habitualmente à grande história, ao comércio longínquo, às redes de economias nacionais ou urbanas. Quando restringimos o tempo observado a duas pequenas frações, temos o conhecimento ou a ocorrência; o acontecimento quer-se, crê-se único; a ocorrência repete-se e, ao repetir-se, torna-se generalidade, ou melhor, estrutura. Invade a sociedade em todos os seus níveis, caracteriza maneiras de ser e de agir desmedidamente perpetuadas (...). É ao longo de pequenos incidentes, de relatos de viagem que uma sociedade se revela. A maneira de comer, de vestir, de morar, para os diversos estratos, nunca é diferente. E esses instantâneos afirmam também, de uma sociedade para outra, contrastes e disparates nem todos superficiais. É um jogo divertido, que creio não ser fútil, o de compor estas imagens”.[9]

Ademais, o autor colocou em questão as diferentes temporalidades históricas, nas quais os acontecimentos articulam-se em basicamente três tempos entrecruzados, o curto, a conjuntura e a estrutura.[10] No entanto, a obra braudeliana é utilizada como pano de fundo, ou seja como um panorama do período, para se entender a vida material e a sua relação com a atuação das mulheres senhoriais paulistas nas estruturas do cotidiano da vila de São Paulo colonial. Isto é, essa obra é importante para o conhecimento das formas de comer, vestir e morar dessas senhoras.
A temática da vida material também foi abordada em  Caminhos e Fronteiras de Sérgio Buarque de Holanda, que delineou com perspicácia os limites flexíveis do povoamento com os seus avanços e recuos.[11]  O historiador analisou o dia-a-dia das populações sertanistas, das tensões e ambigüidades entre o cotidiano, a cultura material e a sociedade do sertão.[12] Para realizar essa análise, Holanda utilizou-se de uma vasta gama de documentação primária como as Cartas Jesuíticas, Testamentos, Inventários as Atas da Câmara de São Paulo.
A partir dessas duas abordagens, vale lembrar que as populações coloniais, de certa forma, viviam sob muitos aspectos nas tramas das estruturas cotidianas da vida material pré-industrial. Nessa perspectiva, as mulheres senhoriais também sobreviviam em meio a uma labuta diária de trabalho e de produção dos artefatos materiais e dos excedentes, pois auxiliar os cônjuges na administração da mão-de-obra escrava indígena nas tarefas domésticas, as quais lhes cabiam como papéis normativos. Desse modo, adquiririam um espaço de autonomia na dinâmica econômica, com a formação de uma incipiente mercantilização e de uma sociedade hierárquica e estamental – na vila de São Paulo Colonial.
Vale ressaltar que a categoria de gênero relacionada ao estamento e à escravidão auxilia o estudo da atuação das mulheres senhoriais, na medida em que fornecem elementos para a problemática das hierarquias sociais na Piratininga. A partir dessa questão, percebeu-se as nuâncias das distinções e dos papéis sociais entre a população feminina e a masculina.
Nesse espaço havia uma segmentação social separando as várias estratificações senhoriais da população escrava. De fato, nessa sociedade, valorizava-se o status de casado, os códigos idealizados de nobreza e o domínio do senhor sobre os familiares. [13] Conforme afirmou Florestan Fernandes,
 “a vila de São Paulo apresenta-se originalmente como uma sociedade dotada de um complexo sistema de posições sociais. Os lavradores procuravam classificar-se como uma espécie de nobreza agrária. Distinções estamentais, com fundamento nobiliárquico, sacerdotal, burocrático ou artesanal, dividiam ou subdividiam as várias categorias sociais, em que se classificavam os homens brancos”.[14]

O autor também fez apontamentos sobre a população da vila e as suas possibilidades de análise. A região era povoada por uma grande diversidade de colonizadores: espanhóis, portugueses, flamengos eram aqueles que se passaram a habitá-la. O seu povoamento acontecia por meio das relações guerreiras entre os colonos e indígenas, que tornavam um ponto de circulação de cativos distribuídos pelo litoral. Esses confrontos bélicos, portanto, eram característicos dessa colonização, pois eles permitiam a consolidação do sistema escravista. Sintetizando, essa “militarização”, Florestan esclareceu que
“...a colonização de São Paulo pelos portugueses resultou, em grande parte, das condições em que se processaram os contatos com os povos aborígenes. Os brancos ficaram segregados na área litorânea, tendo pequenas probabilidades de satisfazer todas as necessidades econômicas e de exploração dos produtos coloniais. A conquista da “região mediterrânea” determinou uma alteração capital na situação de contato, pois deu aos brancos o controle de algumas fontes básicas de subsistência e criou condições mais favoráveis à sujeição das tribos ‘aliadas’ e ‘inimigas’. Depois de 1554, os brancos modificaram, através da guerra, lentamente mas de tal maneira as relações com os grupos tribais aborígenes que antes do fim do século, já se tinham tornado senhores incontestáveis da terra”[15]

É necessário observar que Florestan Fernandes, no artigo “A sociedade escravista”, trata de modo dialético e marxista a constituição das hierarquias coloniais e dos comandos dos estamentos senhoriais, ou da “chamada aristocracia colonial”.[16]
O conceito de estamento relacionado ao período colonial também é formulado por Laima Mesgravis em “Os aspectos estamentais da estrutura social do Brasil colonial”, que destaca os “valores do estamento nobiliárquico”[17] na colônia portuguesa, por influência e domínio da “nobreza metropolitana”.[18] 
Como exemplo desses ideais, a autora nota a degradação do trabalho manual para a sociedade escravista. Para essa sociedade a riqueza ideal era a posse de escravos, que significava a possibilidade de não trabalhar e de adquirir um status ascendente por parte dos estamentos senhoriais. Ou seja, na socidade estamental era desejado por ambos os gêneros a possuír um número significativo de escravarias para poderem se dedicar ao ócio.
 Além disso, os senhores de engenho e os grandes pecuaristas ou donos de grandes lavouras tinham maior posição social e mais alternativas para conseguir cargos na administração e na governança local. No entanto, essa sociedade seria menos rígida hierarquicamente do que a da Metrópole. Isto é, havia algumas possibilidades de ascensão social. Conforme a mesma, “o colono, mesmo de origem humilde e excluído dos grupos privilegiados, tornando-se povoador, enriquecendo, participando da defesa e do governo das vilas, saltava etapas no processo de ascensão social e conseguia para seus filhos e, às vezes, até para ele mesmo, a admissão no estamento dominante”[19]
Também as mulheres senhoriais tinham distinções entre si, sendo várias as hierarquias estamentais relacionadas à diferenciação social feminina. Dessa forma, não só os colonos e senhores homens distinguiam-se socialmente, mas também as mulheres eram estratificadas conforme o tamanho das escravarias, do patrimônio e do prestígio social.
No debate desse conceito de estamento, Ilana Blaj, em As tramas das tensões, discute a mercantilização da economia paulista na passagem do século XVII ao XVIII. A autora construiu a sua perspectiva da História da vila de São Paulo colonial, criticando as imagens produzidas pela historiografia sobre essa região.[20] Refletindo sobre a categoria de “sociedade estamental” aprofundou a questão quando afirmou que
"é pois claro o sentido estamental que advém da posse da terra e de escravos. A consecução do ideal de ser senhor (pela monopolização da terra e de cativos) representa a reconstrução, sob novas bases, dos valores e comportamentos fundamentais da velha sociedade portuguesa aqui na colônia. É a cristalização de uma sociedade hierárquico-estamental-cristã mas escravista e mercantil também, resultante da integração da grande propriedade, da escravidão e dos princípios estamentais provenientes do mundo ibérico".[21]

Além do estamento, a questão da escravidão indígena é importante para essa pesquisa, pois trata sobre as mulheres escravas indígenas, as quais eram oprimidas pela sociedade hierárquica, estamental e escravista, sendo que as mulheres coloniais também tinham o ideal de ser senhoras escravistas.
 A partir da exploração da mão-de-obra do gentil, tratada por John Monteiro em Negros da terra, a História das Populações Indígenas no Brasil Colonial tomou novos rumos. O autor abriu possibilidades para que outros trabalhos fossem realizados, enfocando os aspectos do processo de cativeiro dos índios, principalmente na São Paulo Colonial.[22]
 Ademais, a população escrava e indígena distinguia-se na questão de gênero, pois homens e mulheres cativos possuíam posições hierárquicas diferenciadas na sociedade estamental. Inferiores nessa hierarquia sofriam a violência e a exploração do trabalho escravo. No entanto, os gentios conseguiam realizar algumas estratégias de sobrevivência, negociação, atuando no dia a dia da vila.
Em suma, a atuação feminina senhorial era significativamente ambígua nas estruturas do cotidiano da São Paulo colonial. As mulheres senhoriais paulistas, por um lado, reproduziam as relações e os valores escravistas e senhoriais com relativa autonomia, explorando o trabalho da população cativa. Por outro, constituíam poderes intermediários entre os homens senhoriais e a população escrava indígena.


[1] Joan W. Scott. "História das mulheres". In: BURKE, Peter. A escrita da História. São Paulo: UNESP, 1992, p. 75.
[2] “Its use rejects biological explanations, such as those that find a common denominator for  diverse forms of femeal subordination in the facts that women have the capacity to give birth and men have grater muscular srtrength. Instead, gender becomes a way of denoting ‘cultural constructions’ – the entirely social creation of ideas about appropriate roles for women and men. It is a way of referring to the exclusively social oriins of the subjective identities of men and women. Gender is, in this definition, a social category imposed on a sexed body. Gender seems to have become a particularly useful word as studies of sex and sexuality have proliferated, for it offers a way of differentiating sexual practice from the social roles assigned to women and men” Joan W. Scott “Gender: a useful category of historical analysis”. In: The American Historical Review, vol. 91, no 5, dec., 1986, pp. 1056-1057.
[3] “Theorists of patriarchy have addressed the inequality of males and femeals in important ways, but, for historians, their theories pose problems. First, while they offer an analysis internal to the gender system itself, they also assert the primacy of that system in all social organization. But theories of patriarchy do not show how gender inequality structures all other inequalities or, indeed, how gender affects those areas of life that do not seem to be connected to it. Second, whether domination comes in the form of the male appropriation of the female’s reproductive labor or in the sexual objetification of women by men, the analysis rests on physical difference. Any physical difference takes on a universal and unchanging aspect, even if theorists of patriarchy take into account the existence of changing forms and systems of gender inequality. A theory that rests on the single variable of physical difference poses problems for historians: it assumes a consistent or inherent meaning for the human body – outside social or cultural construction – and thus the ahistoricity of gender itself. History becomes, in a sense, epiphenomenal, providing endless variations on the unchanging theme of a fixed gender inequality”. Ibidem, pp. 1058-1059.
[4] “...gender is a primary way of signifying relationships of power. It might be better to say, gender is a primary fild within which or bay means of which power is articulated”, Ibidem, p. 1069.
[5] “Gender, then, provides a way to decode meaning and to understand the complex connections among various forms of human interaction. When historians look for the ways in which the concept of gender legitimizes and constructs social relationships, they develop insight into the reciprocal nature of gender and society and into the particular and contextually specific ways in which politics constructs gender and gender constructs politics”.Ibidem, p. 1070.
[6] “We need a refusal of the fixed and permanent quality of the binary oposition, a genuine historicization and deconstruction of the terms of sexual difference. We must become more self-conscions about distinguishing between our analytic vocabulary and the material we want to analyze. We must find ways (however imperfect) to continually subject our categories to criticism, our analyses to self-criticism”. Idem, p. 1065.
[7] Ver Fernando A. Novais. Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808). São Paulo: Hucitec, 2001. Fernando A. Novais. Aproximações. Estudos de História e Historiografia. São Paulo: Cosaic Naif, 2005. 
[8] Fernand Braudel. Op. Cit.
[9] Ibidem, p. 17.
[10] Sobre as diferentes temporalidades braudelianas ver: Fernand Braudel.  La Historia das ciencias sociales. Madrid: Alianza Editorial, 1970.
[11] Sérgio Buarque de Holanda. Op. Cit.
[12] Segundo Ilana Blaj, “meio-sociedade cultura, índio-português-mameluco, cotidiano – cultura material e são, assim, em integração tensional constante, gerando o mais novo: a cultura paulista em suas inúmeras sedimentações provisórias – no sertão, nas vilas e arraiais, nos rios e monções e nos postos mais avançados da conquista do extremo oeste”. Ilana Blaj. "Sérgio Buarque de Holanda: historiador da cultura material". In: CANDIDO, Antonio.(org.) Sérgio Buarque de Holanda e o Brasil. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 1998, p. 36.
[13] Florestan Fernandes. "Aspectos da evolução social de São Paulo". In: FERNANDES, Florestan. Mudanças Sociais no Brasil. São Paulo/ Rio de Janeiro: col. Corpo e a alma do Brasil, Diefel, 1979, p. 198.
[14] Ibidem, p. 198.
[15] Ibidem, p. 256.
[16] Florestan Fernandes. "A sociedade escravista no Brasil". In: FERNANDES, Florestan. Circuito Fechado. Quatro ensaios sobre o poder institucional. São Paulo: Hucitec, 1976, p. 45.
[17] Laima Mesgravis. “Os aspectos estamentais da estrutura social do Brasil Colônia”. In: IPE: São Paulo, no. 13, 1983, p. 809.
[18] Ibidem, p. 811.
[19] Ibidem, p. 807.
[20] Ilana Blaj. As tramas das tensões: o processo de mercantilização de São Paulo Colonial (1681-1721). São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP: Fapesp, 2002.
[21] Ibidem, p. 324.
[22] A História do indígena na colônia possui inúmeros trabalhos, dentre eles ver John M. Monteiro. Negros da terra. Índios e Bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. Pedro Puntoni. A guerra dos bárbaros. Povos indígenas e a colonização do sertão Nordeste do Brasil (1650-1720). São Paulo: Hucitec/Fapesp, 2002. Ronald Raminelli. Imagens da Colonização. A representação de Caminha a Vieira. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996. Cristina Pompa. A religião como tradução. São Paulo: EDUSC, 2003.